quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Fado


Sento em frente à luz de velas disposta a me fazer calar, proibindo mesmo que meu pensar em ti recaia outro momento. Do meu despertar até o instante de cerrar os olhos na madrugada alta, sua imagem fixa em minha memória me sorri mas a ausência do seu abraço me leva à nostalgia intrusa do que quase não vivi. Decido assim esquecer o momento em que a boa sorte me guiou em pensamento até a luz dos olhos teus... Apagar em um soprar a lembrança do céu de estrelas que noites atrás cobriu nosso silêncio. Permito que se vá a imagem do sol nascente que tendo se erguido imponente minguou frente à tua claridade maior. Prometo então a qualquer ser de minha devoção abandonar a sensação ainda viva de sentir o calor das suas mãos calmas a segurar o tremor das minhas. E decidida, pouco aliviada ainda que vazia, fecho os olhos fingindo dormir tentando impedir que tornem a cair as mesmas lágrimas resolutas. É então que, no sonho, tu vens. Sorrindo, claro como o dia, abre para mim a janela de uma conhecida vista e repete aos meus sentidos como é bom mais uma noite estar comigo. Esmorecem, outra vez, minhas tolas intenções. Se ergo castelos de pó, no mais bonito deles, tu vive comigo. De todos os sonhos sonhados, esse é o mais ansiado abrigo.
 
Marina Costa

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Sob uma sombra


Alguém morreu. Estava lendo sossegada sobre a árvore, aproveitando o calorzinho da tarde que começa quando do meu lado sentou-se uma moça bonita. Ela fungava. Eu, quis ser discreta, permaneci como se meu livro fosse de todos o mais interessante, desde a Origem de Darwin. Mas aí ela começou a soluçar. Imóvel, me desesperei. Não sabia mesmo o que fazer, afinal era eu para ela tão desconhecida como para mim ela se mostrava estranha. Os soluços foram aumentando. Olhei de soslaio, despistando. Ela mexia no celular. Abençoado salvador moderno das situações constrangedoras. Ainda assim, o choro não interrompia. E eu paralisada entre a estupidez do calor humano não pedido e a gélida ausência de caridade cristã. Não que a morte tenha me afetado com sua ceifadura próxima. De mais a mais, eu não sabia de quem se tratava. Mas aquela moça sabia. E sentia. E estava ali, tão perto de mim que me fez sentir como se eu fosse a mais ruim de todos os corações gelados da terra. Quando finalmente me resolvi a chegar perto, perguntar se ela estava com alguém, ou no mínimo se precisava de um copo de água, chegou um senhor. A pegou pela mão. Lhe disse que não havia certeza que (disse o nome de uma outra moça) estava no avião. E a levou dali, nos braços. Eu fiquei com um pouco da tristeza dela. Da tristeza de pensar que um dia bonito sobre uma árvore pode ser também a lembrança de uma perda dolorida.
 
Marina Costa
 
* Depois fui saber que a outra moça era a esposa de Eduardo Campos. E essa desconhecida que atravessou minha vida por um
acaso desses do destino, uma amiga do casal. À eles, quem foi e quem fica, toda a paz que pode caber nesses momentos de tormenta.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Sol do Meu Dia


Em agonia, grito. Olho para o infinito e insisto. Nem mesmo o eco me volta. No escuro, o silêncio é sepulcro, onde habito inerte a espera do teu renascer.
 
Marina Costa