sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Sob uma sombra


Alguém morreu. Estava lendo sossegada sobre a árvore, aproveitando o calorzinho da tarde que começa quando do meu lado sentou-se uma moça bonita. Ela fungava. Eu, quis ser discreta, permaneci como se meu livro fosse de todos o mais interessante, desde a Origem de Darwin. Mas aí ela começou a soluçar. Imóvel, me desesperei. Não sabia mesmo o que fazer, afinal era eu para ela tão desconhecida como para mim ela se mostrava estranha. Os soluços foram aumentando. Olhei de soslaio, despistando. Ela mexia no celular. Abençoado salvador moderno das situações constrangedoras. Ainda assim, o choro não interrompia. E eu paralisada entre a estupidez do calor humano não pedido e a gélida ausência de caridade cristã. Não que a morte tenha me afetado com sua ceifadura próxima. De mais a mais, eu não sabia de quem se tratava. Mas aquela moça sabia. E sentia. E estava ali, tão perto de mim que me fez sentir como se eu fosse a mais ruim de todos os corações gelados da terra. Quando finalmente me resolvi a chegar perto, perguntar se ela estava com alguém, ou no mínimo se precisava de um copo de água, chegou um senhor. A pegou pela mão. Lhe disse que não havia certeza que (disse o nome de uma outra moça) estava no avião. E a levou dali, nos braços. Eu fiquei com um pouco da tristeza dela. Da tristeza de pensar que um dia bonito sobre uma árvore pode ser também a lembrança de uma perda dolorida.
 
Marina Costa
 
* Depois fui saber que a outra moça era a esposa de Eduardo Campos. E essa desconhecida que atravessou minha vida por um
acaso desses do destino, uma amiga do casal. À eles, quem foi e quem fica, toda a paz que pode caber nesses momentos de tormenta.

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