quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Karma Calma


 Quando a alma aperta o peito e a lágrima pensa em descer, o sorriso suspende a agonia de viver assim, sem saber direito pra quê. A apreensão continua, aflita, a buscar respostas mas o coração, sábio conhecedor do amanhã, acalma a mente… Bons ventos sempre vêm apagar a tormenta da incerteza. Como o sol do novo dia a esperança reacende. A vida pulsa para podermos morrer e renascer. A todo momento.
 
Marina Costa
 
Crônica originalmente publicada sobre o título de Calma Karma (sabe... quando a ordem dos fatores não altera o produto...) http://vidasetechaves.wordpress.com/2014/10/27/calma-karma/
 

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Concepção


Da janela ela contemplava o novo mundo, calma harmonia, dentro e fora. Verde, brilho e luz transformavam seu jardim num pequeno éden perdido, a salvo de todo o caos que reinava na cidade de onde fugiu. Fugiram, para dar ao novo ser um jeito mais digno do que o humano de viver. Ela olhou para a barriga e na confusão de sensações e incertezas sentiu-se, de certa forma, feliz. Os sonhos de outrora se renderam ao calor do lar e ao peito do outro, que lia embalado pela rede. Ela sorriu. Ele sentiu e retornou o sorriso, emoldurado pelos olhos honestos que a fizeram deixar o avião da ambição partir. Ele se levantou, beijou seu ventre e ali se deixou ficar, protegido como nunca esteve, no colo daquela que aceitou sua paz. Ela afagava seu cabelo e pensava em paisagens, risos fáceis, estradas infindas… A chaleira apitou clareando o devaneio. Ele apertou sua mão e silencioso foi buscar o chá. Antes que voltasse, ela limpou do rosto uma lágrima sentida. O paraíso tinha um preço. E amorosamente pelo resto da vida, ela se dispôs a pagar.
 
Marina Costa


quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Noites e Noites de Amor e Guerra


Ontem outra vez encontrei Galeano. Ele fumava, como sempre e divagava como nunca. Dizia que esse tal coração, assim tão independente, não passa de bicho carente que se finge doente para ter atenção. Mais ainda, me ensinava a aparentar dureza para não desvanecer a esperteza de quem diz gostar de solidão. Eu ria, deliciada pela fumaça, pelo hálito de Havana e pela faceirice daqueles olhos velhos, de quem muito mais viu que viveu e muito resistiu a se lançar na frente de um dos inúmeros desgovernados trens carregados de vida. Sei que ao final do sonho, depois de horas de palavras sem pé e com muita cabeça acabei por me despedir sem palavras e ele também não me disse adeus. Foi assim, sem abraços ou hipocrisia, sem até logo ou nunca mais, coisa de quem não precisa de cortesia para se fazer gentil. Ainda me lembro de ouvi-lo ensinar que cumplicidade carece de silêncio mais que de certeza. Nos meus sonhos gosto de ver reinar a ausência sepulcral de voz nenhuma. Porque eco é bicho invejoso de alegria alheia. E falta do que dizer só pode ser sinal certo de infindo pensar.
 
Marina Costa

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Juízo ao Final


No estranho novo dia que nasceu, a lua não se pôs e o sol não se ergueu. Um lusco fusco sombrio reinou, expulsando com parcas forças a noite escura e impedindo temeroso o dia de clarear. Nas casas, luzes incertas se acenderam, estranhando as sombras que pareciam não querer se dissipar. Cabeças foram surgindo pelas portas e janelas e uns viam nos olhos dos outros o medo do desconhecido que não ousavam pronunciar. Mãos foram se buscando e mães agarravam os filhos, com medo do bicho que poderia chegar. O pavor subiu com a neblina e a histeria do desconhecido começou a se mostrar. Os relógios, enlouquecidos, pararam de girar, pois sem o movimento do astro rei meio dia já não fazia mais sentido. Não se viam estrelas, Vênus era uma lembrança fraca e quando a primeira voz ousou falar, uma trovoada de ensurdecer retumbou nos céus, como anunciando um novo tempo de fogo e angústia. Eis que das nuvens desceu uma coruja, silenciosa e sinistra. Pousou na torre mais alta da igreja. Olhou cada um dos olhos temerosos e piou, uma sentença definitiva. A terra se abriu num grande rasgo e um a um, os casebres foram ruindo, cedendo espaço ao nada dos primeiros tempos. Ao fim de todo o barulho, a luz reapareceu, a bruma se dissipou e as pessoas como que despertaram de seu transe involuntário. Algo mais havia sido engolido pela boca do mundo. Além de tijolos e telhas foi-se junto, perdendo-se com os pertences, a memória.
 
Marina Costa