segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Concepção


Da janela ela contemplava o novo mundo, calma harmonia, dentro e fora. Verde, brilho e luz transformavam seu jardim num pequeno éden perdido, a salvo de todo o caos que reinava na cidade de onde fugiu. Fugiram, para dar ao novo ser um jeito mais digno do que o humano de viver. Ela olhou para a barriga e na confusão de sensações e incertezas sentiu-se, de certa forma, feliz. Os sonhos de outrora se renderam ao calor do lar e ao peito do outro, que lia embalado pela rede. Ela sorriu. Ele sentiu e retornou o sorriso, emoldurado pelos olhos honestos que a fizeram deixar o avião da ambição partir. Ele se levantou, beijou seu ventre e ali se deixou ficar, protegido como nunca esteve, no colo daquela que aceitou sua paz. Ela afagava seu cabelo e pensava em paisagens, risos fáceis, estradas infindas… A chaleira apitou clareando o devaneio. Ele apertou sua mão e silencioso foi buscar o chá. Antes que voltasse, ela limpou do rosto uma lágrima sentida. O paraíso tinha um preço. E amorosamente pelo resto da vida, ela se dispôs a pagar.
 
Marina Costa


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