segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Juízo ao Final


No estranho novo dia que nasceu, a lua não se pôs e o sol não se ergueu. Um lusco fusco sombrio reinou, expulsando com parcas forças a noite escura e impedindo temeroso o dia de clarear. Nas casas, luzes incertas se acenderam, estranhando as sombras que pareciam não querer se dissipar. Cabeças foram surgindo pelas portas e janelas e uns viam nos olhos dos outros o medo do desconhecido que não ousavam pronunciar. Mãos foram se buscando e mães agarravam os filhos, com medo do bicho que poderia chegar. O pavor subiu com a neblina e a histeria do desconhecido começou a se mostrar. Os relógios, enlouquecidos, pararam de girar, pois sem o movimento do astro rei meio dia já não fazia mais sentido. Não se viam estrelas, Vênus era uma lembrança fraca e quando a primeira voz ousou falar, uma trovoada de ensurdecer retumbou nos céus, como anunciando um novo tempo de fogo e angústia. Eis que das nuvens desceu uma coruja, silenciosa e sinistra. Pousou na torre mais alta da igreja. Olhou cada um dos olhos temerosos e piou, uma sentença definitiva. A terra se abriu num grande rasgo e um a um, os casebres foram ruindo, cedendo espaço ao nada dos primeiros tempos. Ao fim de todo o barulho, a luz reapareceu, a bruma se dissipou e as pessoas como que despertaram de seu transe involuntário. Algo mais havia sido engolido pela boca do mundo. Além de tijolos e telhas foi-se junto, perdendo-se com os pertences, a memória.
 
Marina Costa
 

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