quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Noites e Noites de Amor e Guerra


Ontem outra vez encontrei Galeano. Ele fumava, como sempre e divagava como nunca. Dizia que esse tal coração, assim tão independente, não passa de bicho carente que se finge doente para ter atenção. Mais ainda, me ensinava a aparentar dureza para não desvanecer a esperteza de quem diz gostar de solidão. Eu ria, deliciada pela fumaça, pelo hálito de Havana e pela faceirice daqueles olhos velhos, de quem muito mais viu que viveu e muito resistiu a se lançar na frente de um dos inúmeros desgovernados trens carregados de vida. Sei que ao final do sonho, depois de horas de palavras sem pé e com muita cabeça acabei por me despedir sem palavras e ele também não me disse adeus. Foi assim, sem abraços ou hipocrisia, sem até logo ou nunca mais, coisa de quem não precisa de cortesia para se fazer gentil. Ainda me lembro de ouvi-lo ensinar que cumplicidade carece de silêncio mais que de certeza. Nos meus sonhos gosto de ver reinar a ausência sepulcral de voz nenhuma. Porque eco é bicho invejoso de alegria alheia. E falta do que dizer só pode ser sinal certo de infindo pensar.
 
Marina Costa

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