segunda-feira, 24 de novembro de 2014

De sempre ir indo

 
 
Eu queria sempre um consolo e essas coisas tendem a sumir com o tempo. Parece que quanto mais idade, mais experiência de mundo, menos você precisa de colo, de ombro, de palavras de incentivo. Quanto mais desbravador a gente se mostra menos importante fazemos parecer as decepções. Todo mundo olha com tanta certeza da recuperação certa que ninguém procura mais estender a mão. Consolar alguém assim, tão a frente, tão independente, seria uma confissão de que afinal não há muita esperança de que tudo possa ir sempre bem. Os fortes sobrevivem, a custa de falsos suportes para se manterem de pé. E na fragilidade da vida ninguém quer acreditar. Não fomos ensinados a tal, afinal.
Há que um dia haver colos por telefone, como daqueles números de prevenção ao suicídio que os candidatos a suicidas podem ligar. Anonimato claro, de quem fala e de quem ouve para que a vida continue sem perturbar a ilusão de força que os grandes exercem sobre os pequenos.
 
Marina Costa

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Do bem (ou mal) de ser dona do próprio nariz

 
 
- Não precisa não menino, deixa que eu carrego sozinha!
- Gente, mas nem venha me buscar não, descubro onde é, chego já!
- Já fiz, dei meu jeito, mas agradeço assim mesmo, viu?
- Homem, dê isso aqui, eu conserto para você!
- Eu? Não sei não, amanhã já devo estar em outro lugar, nem precisa preocupar que sei andar sozinha tem tempo...
- Ah, sim, mas resolvi ontem mesmo, estava lá, meio que a toa, daí eu fui e fiz!


***
- Menina, mas tem alguma coisa que eu posso fazer por você? Nunca vi independência tamanha, será que eu tenho utilidade? Ele pergunta, meio que em tom de brincadeira...

***
Daí ela pára e pensa... toma um puxão de orelha da delicadeza feminina e olhando aquele rosto sincero e iluminado começa a sentir o comichão do desejo de parar de andar sempre em frente e se deter, ainda que por pouco tempo...
- Pode sim! - diz sorrindo - Senta aqui do meu lado e me ajuda a contar estrelas... Não consigo fazer isso só, não!
 
Marina Costa