terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Passagem


A ampulheta não dá trégua e por mais repleta, parece cada grão ser o último. E ao invés de movimentar, de dar a volta ao mundo, olho desesperada o abundante cair. Perdida em devaneios, cultivo um certo amor que não vingou, em outro vejo o reflexo de uma indecisão, o próximo me mostra a companhia que não fiz e sinto aquele que diz que talvez o amanhã seria sim. Imóvel, no canto da sala, conto e choramingo momentos. De dentro do vidro meu duplo afunda na areia, gritando com olhos mudos que a vida não é infinita, o corpo sempre jovem como o sol vai se extinguir e todos os meus “nãos” vaidosos são piada curta. Essa imagem de contrastes me leva a agir. O olhar vago desanuvia e busca enxergar além. Minhas pernas correm, para fora do tempo, a buscar paisagens que caibam na eternidade do meu momento. E assim cai levemente o último grão de ontem.
 
Marina Costa

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