quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Quem? Eu?


Os velhos políticos pedem uma forma nova de se fazer política. Não preciso citar nomes não é mesmo caro companheiro? Com o transbordar da corrupção no cenário brasileiro, espalhando-se por escusas instâncias tais quais a lama da Samarco nos montes das Minas Gerais, a cada manchete outra há uma figurinha carimbada a pedir aos nobres colegas que mudem seu modo de governar. Acredito ser isso um sinal de entendimento: as pessoas estão menos tolas ainda que incomodamente acomodadas. Mas estão apontando, comentando, compartilhando, curtindo e deslikando. Em um dia, é o único vereador na bancada belohorizontina que vota a favor do Uber. No outro, certa comissão instalada para fiscalizar, quem diria, mineradoras. Acordamos e bate à porta novo partido levantando a surrada bandeira verde enquanto promete reunir sobre sua premissa os discentes do clube dos levianos. E assim vamos todos percebendo que a cobra começou mesmo a fumar e cabeças vendidas começam, finalmente, a rolar. Quem corta é a PF, amparada pela guilhotina do MPF, que cedo ou tarde ganhará brasão na bandeira nacional. Quem assiste, extasiado, é o povo e os adversários, ou seja todos nós. Todos mas assim, com um pouco de receio, já que nessa terra de fartura e abundância não há pé que escape de pisar em um pouco de poeira do alheio.  Portanto, caros compatriotas, o quanto antes, o melhor é se colocar do lado dos mais honestos, ou dos menos atingidos podemos dizer. Sair de fininho, deixando os declarados assoladores do povo sofrerem sozinhos a justiça que muito tardou. 500 anos depois, parece que afinal alguns coronéis começam a sentir calor na moleira advindo de furos em seus chapéus. Que o povo não se desespere,  não mais se venda, pois a revolução será sim televisionada. Agora é viral. Haja o que hajar, disparates por vir, o claustro está edificado. É aguardar o destroçar. Assimilar o espírito faceiro brasileiro e construir a partir dos destroços a dignidade que queremos, mesmo que sem saber. Tenhamos todos um feliz ano novo. E que não seja, outra vez, apenas outro.
 
Marina Costa

domingo, 20 de dezembro de 2015

Achado

 
Ele apareceu junto com o sol, que depois de muito se esconder entre nuvens despontou pleno e quente na manhã que se fez nova. O brilho de um recaiu sobre o outro e ao olhar dela a luz dos olhos dele chegou. Hipnotizada, observava estática o vento balançar-lhe os cabelos negros e esquecida do momento, sentia como melodia as palavras que ele dizia, sem ousar entender. Ele riu. Ela, desperta, emendou um sorriso cúmplice. Deram-se as mãos. Naquela longa e inóspita estrada ela que andava um pouco distraída, tinha encontrado algo real. Agradeceu a boa estrela do destino e o seguiu.
 
Marina Costa

sábado, 5 de dezembro de 2015

Manifesto ao Idiota mais Próximo


Eu, em nome de todas as pessoas que buscam um sentido para o ato de comer e dormir, que acredita que raciocinar sobre nossas necessidades fisiológicas é só mais uma prova de que há algo mais entre céu e terra - porque afinal nos foi dada a capacidade de pensar - eu, que não admito o que acontece na Ucrânia, no Egito, em Brasília mesmo vivendo a quilômetros de lá, eu, que estou cansada de ser interpretada como um poço de segundas intenções, venho a público manifestar minha profunda revolta e insatisfação com as pessoas que compõe esse meu corpus social. Me aborrece sua capacidade de esquecer a amplidão do mundo e se limitar a seu mal lavado umbigo. Me entristece ver suas artimanhas fingidas de conquista interessada para satisfação imediata de seus luxuriosos interesses. Me enoja sua capacidade de rir do alheio enquanto sua vida vai bem ou ao contrário chorar lágrimas de crocodilo por questões estúpidas e triviais enquanto em outros lugares, a fome assola, a violência aleija e a corrupção destrói.
É meu desejo que os humanos acordem, algum dia, desprovidos dos seus bens e entes queridos, para imersos em seu próprio egoísmo entender ao menos minimamente porquê vivemos em sociedade.
Somos animais mal armados, meus contemporâneos, e por isso nos unimos, para vencer o ambiente que nos cerca e nos poucos momentos de paz entre uma refeição e outra, podermos admirar o sorriso desdentando dos velhos que seremos, a ignorância sadia de um pequeno que fomos, o colo quente de alguém que amamos por tudo que tem para nos mostrar e não para nos dar.
Como pode, pelo amor do dinheiro se questionem, tanta afetação, tanta luz artificial, tanto lixo filmado e esfregado em nossa cara nos momentos de lazer sem que façamos algo?
Eu grito: tem alguém acordado, por favor?
Ao meu redor está escuro e eu sofro por estarmos todos cegos. E surdos.
Manifesto minha vontade de partilhar saberes. De acalentar. De pensar sobre para onde e porque.
Aqueles que se sentirem minimamente interessados e desprovidos de interesses além que a própria sede de saber e partilhar, porque nada iremos ganhar além da satisfação de raciocinar, peguem suas flautas, seus livros e diários, ideias mirabolantes e sigam-me.
Aos outros, que só buscam mais um folhetim novelesco, passem adiante e peço, não cruzem meu caminho. Tomem-me por um mendigo ou uma barata, quem sabe. Não me firam o orgulho humano com vossa presença oca.
É difícil e dolorido pensar, meus caros. Mas triste e desanimador é o vácuo que insistimos em abrir em nossas cabeças para encher de dinheiro inútil, amores estúpidos e diálogos vazios.

Marina Costa

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Aqui não dá mais

 
A vontade de sair de onde se está é latente e permanente em qualquer animal vivente e dotado de liberdade de movimento. Aqueles paralisados também a  sentem, desejam se mexer mas são obrigados a engolir em seco o ímpeto de se locomover. Andar, que seja para frente, para o lado, para trás por vezes, faz parte da natureza cíclica das coisas que vão. Mas há alguns que teimam em complementar o movimento, ou vontade dele, com disparates. Acontece em algumas  listas de “Brasileiros em algum lugar”, cuja ideia inicial é ajudar aqueles que vão sair do país. Vez ou outra, muitas reconheço infeliz, os olhos são obrigados a ouvir que se sai daqui porque todo o mal reside neste país verde amarelo. É a cultura, são os políticos, a pobreza, a fome, a maldade. A corrupção, a miséria, os coxinhas, os esquerdopatas. O bolsa família, o natal que chega mais cedo, a minha mãe que não quer me deixar fumar um. E tudo vira justificativa para jogar lama no país que se vive e dizer que qualquer lugar é melhor e aqui não dá mais.
 
Meus caros…
Aqui não dá mais. A corrupção dilacera o país e nossos esforços de boa gente são jogados pelo ralo. Colocando a mão na consciência, somos todos culpados. Pois esse mal, herdado ou criado, está entranhado nas nossas mais pequenas atitudes do dia a dia. No troco errado para mais que recebemos, silenciosos e sorrateiros, na padaria. Na gasolina adulterada que vendemos para lucrar centavos a mais. No seguro agregado ao empréstimo para alguém que precisa de um teto para morar. Na cópia alterada do artigo alheio para titular em uma universidade que o governo vai pagar. E aqui e ali vão-se abrindo buracos na dignidade do brasileiro, na concepção distorcida do que somos enquanto nação. Podre. Azedada pelas nossas próprias mãos. Porque reina entre nós, canarinhos, a cultura de que o outro é sempre o ladrão, o mal elemento, quem devemos evitar. Somos cada um, a honestidade e pureza em pessoa. Nossa grama é mais verde e o esgoto do vizinho é que cheira mal. Por isso, cortar esse mal pela raiz e sair logo deste país de eterno carnaval. Eu digo que fico. E espero para assistir vosso embarque. Vão com Deus ou sem ele, por favor. Mas limpem o país dessa mediocridade de pensamento. Ou ficaremos todos, para sempre, sujos em berço esplêndido.
 
Marina Costa

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Cacos


 
As horas se arrastam chocadas contra o dia, tudo ao redor parecendo quebrado, carente de junção. Dentro, soltos, chacoalham os pedaços e o que se ouve é o ruído oco de algo vazio e seco, como barro da criação. Olha para os lados e infinitos cacos esperam, ao menos por um segundo, nova atenção sobre si. Mal sabem que também este espera, no meio de tanta busca, alguém que lhe estenda uma mão verdadeira e resgate do meio da tormenta o desespero com o qual navega na vida. Somos todos partidos, pensa enquanto labora. E com as costas da mão limpa a lágrima absurda que cai por não haver escolha outra que não viver aos pedaços.
 
Marina Costa

domingo, 15 de novembro de 2015

Mil fins



Pela terra seca, mil litros de sangue já verteram antes do hoje. Das rosas que nascem, lágrimas saudosas verterão mil mais. O amanhã trará outras lamúrias, e assim o jardim encharcado novamente florescerá, de gentes, de futuros e de sonhos. Mas cada um destes de novo morrerá como ninguém, pois o fechar dos olhos, o apodrecer da carne revela o nada do qual somos feitos. No infinito, que nunca saberemos se está mesmo lá, ecoará o choro do ego morto. Alcançando as estrelas para além da luz, tal sinfonia de lamento em mil anos vezes mil outros silenciará, no frio do cosmos. E é este o caixão eterno de nossa efêmera vida. Sinta agora na boca o gosto da fantasia humana pelo tempo que ainda resta pois urge a colisão do fim. A morte é fato, o vazio é certo. E sobre ambos talvez só o amor faça algum sentido.

Marina Costa

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Pedidos


Ambos olhavam a água cair enquanto o sol esquentava seus corpos em ebulição. Ela sentou-se de um pulo, olhou o homem ao seu lado e cansada de pensar soltou de supetão: “quero casar com você”. Ele arregalou o olhar aos céus, como se implorasse misericórdia. Sentou-se e enfrentando uma crise de tosse, ria enquanto tentava respirar. Ela sentiu-se contente como sempre, pelo estrago que acabava de causar. Na semana seguinte, enganando padre e parentes, trocaram aliança e cumplicidade debochada em uma igrejinha caindo aos pedaços numa curva empoeirada pelo tempo indiferente. De fato, há muito já estavam casados. Só queriam brincar de ser como todos para terem certeza de que eram os dois. E só.
 
Marina Costa

domingo, 25 de outubro de 2015

Dianóia

 
Apertou a mão dela com força e firmeza. Em retribuição, sentiu seus ossos estalarem. Ela não era uma dessas muitas que andam por aí, a entortar pescoços despertando apenas sensações físicas. Assim como ele, tinha fogo nos olhos. Respeitava seus colegas, do mesmo sexo biológico, pois acreditava que por serem machos era inerente a força em si. Mas quanto a elas, admirava as belas feições, os pares de pernas, bocas sedutoras e não passava disso. Não acreditava que rostinhos bonitos pudessem ter fibra. Até aquele dia. Seus olhos de carvão, sua mão de ferro, sua fala firme, sua eloquência cadenciada,  inebriavam tanto ou mais que seus cílios longos ou sua forma de ampulheta. Dessa vez, foi ele quem perdeu o rebolado. Emudeceu, estupefato. Gaguejou, tropeçou, deixou fugir o argumento e quase caiu. Ela, sorrindo triunfante, saiu da reunião tranquila. Mais uma vez deixou no chinelo marmanjos barbados. Sem precisar de ferramentas outras que o próprio raciocínio.
 
Marina Costa


terça-feira, 20 de outubro de 2015

Mulheres Vestidas


          Em 1953, Marilyn Monroe, símbolo maior do sex appeal ocidental até mesmo nos dias atuais, estampou a capa da primeira Playboy a ser lançada. Em 2015, Cory Jones, editor da mesma revista, solta ao mundo a seguinte frase: “Meu lado 12 anos está muito desapontado”. Isso se deve ao fato de que a Playboy (norte-americana) não irá mais reproduzir, de agora em diante, fotos de mulheres nuas. Com a pornografia barata proporcionada pela era digital, os editores entenderam que as mulheres de papel perderam seu “sentido”. E assim, a revista encerra seu principal motivo de ter sido criada. Em pleno século XXI, esse é o posicionamento de uma empresa frente ao mercado. O que orientou a ação da Playboy não foi a questão da objetificação do corpo feminino, como bem revela a frase de Cory (e há que se duvidar quanto a idade que ele afirma desapontada). A decisão da Playboy de deixar órfãs suas coelhinhas curvilineamente perfeitas trata pura e friamente da questão do lucro. Peladas impressas não estão dando dinheiro. Ponto. Não que as questões feministas* não tenham peso. Ao longo de todos esses anos de publicação, muitas (e muitos, sim homem também pode e deve ser feminista) foram contra, a favor, indiferentes. Mas o que pesa, como bem previsto por Marx, é o capital. Assim, há que se pensar se essa vitória (ou derrota) pode ir para a conta do movimento feminista. Desde que o mundo é mundo, ou de quando os homens tem 12 anos, se pretende a nudez feminina. Mas, aos trancos e barrancos, começa a se olhar para além do rebolado, da comissão de frente, do torneado das pernas.
         
          Ficarão com o orgulho ferido, as futuras musas que nunca serão capa da Playboy? Marilyn, se estivesse viva, reprovaria o ato? É fato que a vaidade feminina se ressente desse corte de orçamento. Por outro lado, vejam só, uma colunista falará “entusiasticamente” sobre sexo em uma coluna na reformulada revista. De certa forma, é a troca da bunda pelo cérebro. De certa forma, parece haver um fiozinho de esperança de que os homens cada vez mais apreciem também as mulheres vestidas. Mesmo se for por culpa da crise. Sempre haverá males que vem parabéns.
 
Marina Costa
 

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Em sina

 
 
Cansada, ela suspira. O dinheiro pouco, a solidão pesada, poucas são as glórias que enxerga no futuro vindas desse presente em que leciona. Ainda que cheia de boas intenções, ali, no meio daquele nada, quase se acha injustiçada da inteligência que lhe clareia as mediocridades humanas. Porque, se pergunta doída, não se conforma com o batido de forno e fogão? Revira os olhos na esperança de afastar aquele pensamento chulo e volta a olhar as provas que tem na mão. Um recadinho atrai sua atenção e ela se concentra na letra miúda e garranchada de Lucinha: "Professora, obrigada por estar conosco aqui nesse fim de mundo. Sei que poderia ser uma mulher muito maior mas se não fossem seus livros eu jamais aprenderia a voar". Com os olhos rasos, ela se pega a pensar nas tais linhas tortas de deus. E em um momento final de epifania, se percebe fundida em um saber humano acima da mesquinhez da vida de todo dia.
 
Marina Costa

sábado, 10 de outubro de 2015

Bahit

 
Conheci, assim sem motivo, um pequeno homem sozinho que fazia pedras. Debaixo do céu estrelado, logo que o dia morria, ele se sentava bem no alto de um morro e começava a declamar poesia. Eram assim umas palavras bonitas, que faziam sentido só no eco do coração, parecendo  para os ouvidos sãos martelar infindo e sem tipo. Mas de cada vez que sua boca se abria, dos céus caía uma rajada brilhante e aos pés do poeta da noite, minúsculas plaquetas brancas como a lua iam se amontoando. Ao final da madrugada, antes do raiar do primeiro raio, ele sumia detrás de um cacto (ou de uma outra moitinha qualquer) e a pilha construída na noite anterior ficava firme, como criatura teimosa a testemunhar a divindade de seu criador. O povo admirado, que de noite nada via além de estrelas cadentes, se perguntava que espírito da natureza podia fazer aquele trabalho, tão bagunçado mas ainda assim tão equilibrado…
Eu ria por dentro da falta de fé de gente que pisa nas pedras das costas do mundo mas não entende que é feita da mesma matéria… E despistando, como quem não quer nada, pegava uma pedrinha da pilha e carregava pra casa, mais um amuleto sagrado, pedacinho a pedacinho tentando terminar uma imensa coluna que me levará até o reino dos deuses caídos. Mais esperta que João, meu pé é feito de pedras e ficando pronto jamais poderá ser abatido. Degrau por degrau eu sei que logo logo vou alcançar as estrelas…
 
(Bahit é o nome dado a pequenos seres sub aquáticos de forma humana que segundo os Zo’é – tribo indígena amazônica – criam, moldam e cuidam das pedras…)
 
Marina Costa

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Monodia


Longe, onde o vento se curva, a terra derrete e o olho esmorece frente tanto o que ver, o peito suspira, o coração aperta e a saudade que bate já não é mais de querer. A falta que faz é sentir. O desejo que grita é viver.
 
Marina Costa

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Conveniências

Photo: Martin Gerten
 
"Pela lei, os declaro marido e mulher."
Nem mesmo se entreolharam. Engoliram em seco. Ele fingiu ocupar-se da caneta. Ela levou a mão à fronte numa alusão febril. Do modo que entraram, saíram e ainda que o peso do estado civil tivesse mudado, lá fora a vida parecia continuar clara e comum como antes. Apertaram-se as mãos e sorriram aliviados. Afinal então a obrigação com um mundo que não era deles, não causaria tanto estrago assim.
 
Marina Costa

domingo, 20 de setembro de 2015

Âmago

 
Sentada no banco branco ela abraçava os joelhos, perdida em um canto de sua alma tão difuso que nem mesmo Renoir poderia alcançar. Quando uma lágrima saudosa caiu dos olhos dela começou a soprar uma brisa mansa mas carregada de uma tristeza tal que minutos depois transformou-se em uma inquieta ventania. O vento parecia querer destruir o mundo tal era sua fúria e força. e mesmo não havendo nuvens no céu e o sol estalando de tão dourado, folhas, saias, cabelos eram jogados para cima como o brinquedo de um garoto emburrado. Apenas ela imóvel, parecia serena. Quilômetros dali, um homem tão impassível quanto as eras sentiu-se subitamente abalado pelo ar que de repente mudou. Estacou e por um segundo infinito fixou o olhar em uma árvore de onde parecia vir o eco de um sorriso perdido. Sem motivo aparente, ele desatou a chorar.

Marina Costa

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Amanhecida

Crédito imagem: Maria Gvedashvili
Ao chegar ao cume da colina, sentou-se exausta e dolorida, livre de objetivos mas vazia de perspectivas. Era ainda madrugada e os pés machucados da caminhada impediam o frio de ser sentido. Abraçou os joelhos e respirou profundamente sentindo mais do que nunca a real liberdade de estar só… de aceitar-se só e perceber na solidão o encontro de uma busca. Sorria, de alívio e de elevo por acreditar que nunca mais lágrimas noturnas viriam assombrar seus medos. Repleta de si, levantou a cabeça e divisou na silhueta de seus dedos os primeiros raios do amanhecer.
 
Marina Costa

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Às Doze


Capitu  me dizia que seus olhos eram mesmo de ressaca. Graças a esquizofrenia de Bentinho, ela não vivia sem beber. O pequeno Ezequiel, como boa criança que era, mantinha-se calmo e ocupado em um mundo onde não importava ser bastardo, enquanto a mãe de olhar no infinito, abria outra garrafa de bordeaux. No meio da penumbra daquela sala, na tensão daqueles amores feridos, eu me perdia em desesperanças de um calmo viver. Há que sempre se desejar o que não tem e seguir duvidando do que é bom demais para ser? Machado ergue os olhos sobre o pincenê enquanto Schopenhauer dedilha ao piano uma triste sinfonia solitária. Soam as doze no silêncio da incerteza.
 
Marina Costa

domingo, 30 de agosto de 2015

Café

 
Sai pela janela meio aberta um aroma novo de madeira adocicada... ela passando pelo passeio aspira e se sente inebriada. Ele, que lê um jornal distraído,  pressente no ar algo diferente. O gato para de lamber os bigodes atraído pelo aconchego de algo quente. Na esquina, a criança entretida puxa a mãe pela saia a pedir uma xícara. Do lado de dentro, não é a manhã nova temperada com cheiro de café fresco que acontece. Pode haver algum engano, mas é amor, ao que parece.
 
Marina Costa

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Rusga


Sentada, emburrada, na quina da calçada, ela pensa ressabiada em todos aqueles disparates. Fechado em um silêncio casmurro, olha de rabo de olho a quietude magoada. Ela, calada, parece considerar os desditos sem fim. Ele, amuado, não sabe voltar atrás para pedir o sim. Ouve um suspiro e percebe na sua mão fria o calor acolhedor de outros dedos. Sente o sorriso que faz o coração amolecer. Com o abraço partido uma vez colado, respiram ambos aliviados. "Porque a calmaria da minha inconstância vem de você."
 
Marina Costa

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Por um desses acasos

 
Passam meses para um ano ir e nos encontrar ali, na soleira da porta, com olhos vazios e mãos abanando, pedintes de sentimento e entendimento da vida. Horas que escorrem e levam, diluídos, desejos insatisfeitos, ideias abandonadas, sorrisos contidos e abraços escusos. A bolsa cheia de frustrações, abandonadas nas covas da memória. É tempo de novos planos, novos projetos de ser humano, novas promessas de insípida melhoria. Mais amor, menos guerra, talvez ler poesia. Se não houvesse sonhos na passagem de outro ano não haveria porquê passar. Levantamos e entramos, fechamos a porta do passado e respiramos fundo para um novo mas já conhecido futuro. Haverão, sabemos bem, planos não realizados. Abandono e apego. Egoísmo acomodado. Mas há que se ter esperança de que tudo mude no virar do calendário. Do contrário, poderíamos simplesmente ficar a ver a areia cair. Seria então melhor saber que o tempo nos soterra sem olhar.
 
Marina Costa

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Oxitocina


Raia o sol amarelo ouro, o mundo estalando de tão vivo e o olho dela, com remela e ressaca, custa a divisar o limiar de um outro dia. Pela janela vem o canto de um bem te vi, a buzina de um apressado, a campainha do padeiro ciclista e o ar fresco da manhã nova. Apesar da dor de cabeça e da perda da mais recente memória, ela sorri. Agarra ainda sonolenta sua aspirina, fiel escudeira de segunda feira, e se prepara para sair. Afinal, já é mais que tempo de ser crescida.

Marina Costa

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Verter


E quando não se quer enfrentar o amanhã? Quando tudo parece sempre no mesmo lugar e um dia é só outro dia, mas se outro dia amanhecer outra vez a gente vai se despedaçar tal qual a madrugada ante os raios do sol que nasce? Pior que esse medo do imutável que não controlamos é a feitura de se fazer simplório para não atormentar quem a gente ama. Deus, como dói viver.
 
Marina Costa

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Palavras Escovadas

 
 
"São tempos difíceis para os sonhadores", é o que diziam para a mocinha melancólica do filme bonito. Do lado de cá da tela a mente dela alçou voo com uma pontada de dor no coração. Pois sabe sim que são. Mas entre uma dobra e outra da vida dura, entre um ontem muito longe e um amanhã de utopia, ela consegue enxergar no espelho alguém que sonha como ela. Juntos, em uma manhã amarela, escovando os dentes com escovas laranja entre risos rosados com sabor de canela. O gato mia e a acorda do devaneio. Ao seu lado, a realidade sorri para ela. 
 
Marina Costa

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Quadrilha

Imagem: http://indulgy.com/post/qQhTkJpJ52/girl-exploding

Cabem em minhas mãos pouco ou nada para carregar visto que o peso de outras mãos me aterroriza com a ideia de que me afundam em mim. Finjo desprendimento, ensaio certo desdém, para fazer acreditar que de mim nada terão. Mas por dentro todos me consomem, cada um à sua maneira tão preciosa, arrancando sem compaixão um naco ensanguentado do meu músculo a bater. E é assim que aos poucos, por todos, me despedaço.
 
Marina Costa

domingo, 5 de julho de 2015

Por minha cabeça


Sempre esperando. Ouvindo, cheirando. Olhando, hora ressaquiada, em outras encantada, os lábios que se mechem, seus olhos que inspiram, o ar que expirado forma imagens na minha frente, me faz viajar anos luz em segundos sem nem mesmo me mover. Enquanto te ouço, te respiro, te dispo da sua casca humana para achar o sopro divino, você me inebria com as possibilidades todas que passam pela minha cabeça. Que está a prêmio.
 
Marina Costa

terça-feira, 30 de junho de 2015

Cor

 

Era uma ideia, uma idealização, um pensamento sem fundamento que assim que passou o tempo virou fumaça branca. Mas felizmente não se perdeu nas dobras do esquecimento. Por mim ou por ti ficou por aí e aqui a mostrar, vez ou outra, que vivia sua risada, seu olhar para além, seu conhecimento de vida. Seu sim e meu não, meu vou e seu fica. E agora pensando outra vez nisso, começo a sorrir. E então me pergunta qual é a piada. E eu gargalho. É a vida ser colorida.
 
Marina Costa

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Yule


Bate no vidro da janela um grosso pingo de chuva e sob o telhado desaba a tempestade torrencial, fazendo estalar paredes e trazendo o frio de fora para o aconchego de dentro. Sem luz e sem distração, eles se olham receosos de encarar a intimidade um pouco esquecida. Ela pensa em uma xícara de chá. Ele pega na estante um livro grande. Ela volta com canela e maçã. Ele começa a ler em voz alta histórias sem fim. Sorrindo, ela se senta. Feliz, ele a abraça. E assim o inverno chega, silencioso e escuro, soprando pelas frestas a arrepiar a rotina. Trazendo a necessidade esquecida de calor do com viver.
 
Marina Costa 

sábado, 20 de junho de 2015

Caídode

Créditos imagem: http://bzzn.net/14rjFKc

A asa partiu-se na queda e o anjo, ralado além de decaído, olhou com compaixão e desespero ao seu redor. De todos os castigos divinos sabia ser este o mais temido ainda que no seu caso tenha sido uma escolha do mais puro livre arbítrio. Não que não tenha se considerado tolo após a queda. Mas resolveu enfrentar com caridade cristã o que lhe aguardava. Pobre diabo, ainda que seja a metáfora adequada, ruim foi a escolha de seu próprio destino. Se a pasmaceira do paraíso o irritava, a cegueira trépida dos homens e mulheres, errantes joguetes, o faria regurgitar lições de catecismo jamais digeridas. E lá se foi o anjo de asa partida. Deixou atrás de si um rastro imaculado de penas. E à sua frente caíam,  à semelhança de triste chuva fina, lágrimas divinas.

Marina Costa

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Filhos


Em uma certa esquina, próxima à igreja de Santa Cruz dos Enforcados…

– Moça, me compra um leite para eu dar pro meu filho? Ele está faminto, sou pobre, mas desculpe interromper seu café da manhã assim viu moça. Eu não tenho onde morar, nem o que comer, minha esposa está comigo nessa estrada sem teto, mas vivemos assim em paz ainda que imundos, se humilhando aqui e ali, passando por ladrão ou drogado, os dois quem sabe… mas o que a gente tem mesmo é fome, moça. Eu tenho dezoito anos, ela dezesseis, o menino não fez nem um ano mas não era mesmo nem pra ter nascido, um peso nessa vida nossa que já era difícil… ele faz aniversário no mesmo dia da Xuxa, veja você! Hoje tem essa manifestação aí, andamos uns 5 quilômetros pra poder pedir pra essas pessoas de amarelo, afinal é gente brigando pelo país né, moça, e eu sou filho da pátria também né, quem sabe alguém não resolve brigar por mim…. Não quero muito mais nada da vida não, eu já até me cansei de pedir pra Deus, por isso to aqui pedindo pra senhora, pro meu filho hoje ter o que comer. Então moça, será que pode me dar um quilo de leite ninho?

Marina Costa

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Partitura


Ele chegou em casa certa tarde como as outras. Pegou o violão e sentou se aos pés da cama sem pensar. Quando posicionou-se pensando em Villa Lobos percebeu que não sabia o que fazer. Franziu o cenho e mudou o instrumento de posição. Nada lhe era familiar. Entre incompreendido e horrorizado, esticou as mãos frente aos olhos, tentando encontrar sinais de degeneração. Pensando em tratar-se de um pesadelo irreal, foi ao banheiro e lavou o rosto na água fria. Ao olhar-se no espelho constatou abismado que suas órbitas estavam ocas e seus ouvidos começavam a sumir.
 
Marina Costa

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Alvéloa

 
 
Tudo o que era para ser virou pó na memória do ontem, quando você fez as malas e me deixou só, sem ação. O tempo parou no momento e desde então só respiro sem que me bata mais o coração.
 
Marina Costa

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Dez encontros


Ele se levanta, sonolento e ressaquiado, a resolver se engole a bílis ou a despeja junto com o arrependimento da noite anterior. Conclui pela nona vez no mês que amor mal resolvido e bebedeira são dispostos que se atraem. Toma um banho frio e tentado a passar todo o dia revolvendo lembranças, pega uma literatura avulsa e bate a porta atrás de si, irritado. Talvez se sentar sobre uma árvore, a vislumbrar silhuetas ao ar livre, acabe por se lembrar menos dela…
 
Ela abre os olhos e enxerga, constrangida, uma companhia ao seu lado. Fecha as pálpebras com força na esperança de que o desconhecido desapareça, mas segundos depois se vê forçada a sorrir um bom dia amarelo. Com pressa e desculpas vazias se veste ansiando ganhar a rua onde a brisa matutina talvez limpe um pouco da culpa que lateja. Entra em um café e o gosto da bebida quente evoca na boca um hálito distante. Suspira desanimada, sem esperanças de esquecê-lo.
 
Marina Costa

terça-feira, 5 de maio de 2015

Cores de uma nova canção

Imagem por Hache Ortiz Pics
 
Pisei num país florido ao ouvir da boca de um desconhecido as cores vivas com que pinta um lugar mal dizido. Fechei os olhos e aspirei o aroma quente das pessoas sorridentes ainda que sofridas. Senti na pele a efervescência dos sons que denunciam a melancolia dos olhos e ressaltam a força dos acuados que não deixam de sonhar. Encantada e sorrindo, abracei Bogotá.
 
Marina Costa

sábado, 25 de abril de 2015

Saudade


Saudade: S. f. Do latim, saudos. Do grego, saudilos. Do bom português, aquilo que aperta o coração quando a mente não deixa ir embora uma lembrança bonita.
 
Marina Costa

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Reviravolta


Ele colheu o fruto e ofereceu, todo sorrisos, à ela que por sua vez ergueu desconfiada a sobrancelha. Quando ele novamente o ofertou, arqueando os lábios em expectativa, ela apurou os ouvidos e atentou para a moita mais próxima de onde vinham risinhos de complô e deboche. Astuta, contornou a maçã com o dedo indicador e antes que ele pudesse reagir agarrou a fruta e a atirou na moita, acertando em cheio a cobra venenosa. Foi assim que morta esta, a caça virou caçador e deixando de ser bode expiatório a mulher tomou em suas mãos a direção do Éden. Sob o jugo feminino o paraíso divino tornou-se o reino realizado das utopias, um verdadeiro e milagroso Jardim das Delícias.
 
Marina Costa

segunda-feira, 30 de março de 2015

Murilo, o Arguto


     Feito de pétalas rasgadas e sons estúpidos, Murilo me oferecia seu amor oco e disforme. Quando éramos ambos crianças, brincávamos com as bolhas de sabão que saíam de nossas bocas escancaradas e ríamos. O crescimento dos corpos nos tirou a diversão para trazer a aflição dos desejos luxuriosos. E nos braços de todos, hora eu, hora Murilo, éramos para um e outro cada vez mais intangíveis.
     Viajei assim, com uma mala vazia e um batom de quinta, lançando olhares a todos os pares de calças do trem. Sentia que Murilo comia com os olhos quaisquer pernas roliças que visse. E ainda que tenhamos comprado destinos separados, nos vimos sozinhos no sopé da mesma serra, de mãos dadas frente à mesma porta azul onde uma cama de casal nos esperava desfeita.
     Ele, contrito, me deu mais uma vez aquele amor esfrangalhado. Eu, arrependida, lhe ofereci meu colo usado. E enquanto a lua subia fina e fria no céu ainda claro, a estrela mais brilhante gargalhava ensandecida, achando graça daquele casal tão perdido e só.
 
Marina, a Intangível
(Marina Costa)

terça-feira, 10 de março de 2015

Impressão


Vejo você sorrir e sorrio junto, aspirando teu cheiro que perfuma o travesseiro. Aconchego meu rosto na palma da sua mão quente enquanto sinto seu braço firme enlaçando minha cintura. O aperto suave de outro abraço espalha em mim o calor vivo do peito seu. E ainda que o tempo não passe, quando acordo apenas me resta a lembrança sentida no sonho. Mais cinco minutos de olhos fechados fico, para sentir outra vez seu corpo impresso no meu.
 
Marina Costa

quinta-feira, 5 de março de 2015

Sentidos


Ela desamarra as sapatilhas e joga aos pés da cama a roupa usada. Sob a cômoda óculos e relógio são arremessados com enfado. Deita sem pensar, dado o cansaço sobre os ombros curvados. Entretanto um suspiro depois, não consegue adormecer. Com os olhos fechados sente correrem lágrimas silenciosas. Não é que a lua não tenha nascido ou faltem estrelas no céu. A solidão muda de sua alma é o que aflige. Faz lembrar que só assim pode manter surda a inteligência que tanto preza.
 
Marina Costa

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Incesto


Ainda deitada ela suspira encolhida. O sol já vai alto mas treme, pelo tormento proclamado. Assusta-se com o fato de não se arrepender de seu ato quando o mundo todo o julga errado. Perdida em uma satisfação estranha de estar acima do pecado, ela sente a mão quente acariciando seu cabelo embaraçado. Sorri. Se o inferno são os outros, viverão a sós e unidos, felizes em partilhar juntos uma mesma perdição.
 
Marina Costa

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Escárnio



Cai do céu em cântaros transbordantes o riso embriago dos deuses estupefatos. Tamanha euforia irônica se deve à última grande traquinagem da humanidade. Eis que dentre tudo que nos é permitido desfrutar, optamos, em um ato ensandecido, por recusar a maçã divina, em detrimento da mea culpa eterna. A vida desnuda no Éden é o grande desejo humano e motivo da divina comicidade infinda.
 
Marina Costa

domingo, 25 de janeiro de 2015

Limiar

 
Joga a moeda para cima rezando para que perca. É tão mais simples deixar tudo para trás... Olhando com esperança o brilho do metal no ar, ora com fervor para que o destino mande a ordem de andar. Nômade de si mesma, aceitará resignada uma nova estrada e quando perguntarem porque se foi, porque desistiu, poderá relegar ao desconhecido o peso de sua decisão. Lavar as mãos e enterrar na sombra do passado todo o presente que não se acha em condição de receber.
 
Caiu a moeda, o barulho desperta os devaneios. Quica na calçada e rola bamboleando, lenta e indecisa, como quem a jogou. Inesperadamente, uma pedra no caminho a faz saltar e o bueiro a acolhe, indiferente e escuro. Decepção. Volta aos ombros o peso da escolha da própria vida. Fica a lição da moeda: não há ir ou ficar. O caminho será sempre um salto no abismo. Duas coisas apenas permitem um pulo sem dor: abrir as asas e cair de pé.
 
Marina Costa

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Revertério


A notícia chegou tarde, ainda assim inebriante. Nada demais as poucas palavras diziam, mesmo sendo suficientes para encher a barriga dela de borboletas. Mas antes que causassem o prometido revertério, ela correu ao banheiro e vomitou outro sonho. Andava a preferir a realidade amarga da bílis a qualquer doçura fingida de alguém que não existe.

Marina Costa

sábado, 10 de janeiro de 2015

Cantiga


Sente o vento como fluido de vida ao perpassar por entre os dedos, acaricia o cabelo envolvendo a mente em ecos do passado... a brisa do fim de tarde devolve lembranças. Escuta no silêncio da noite que se propõe o próprio coração bater. E ele canta a mesma canção que todos os dias pela manhã finge esquecer. É de tu, tu, tu...
 
Marina Costa

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Novena

Vai às janelas todos os dias, logo após a reza das cinco, banhada e florida, confiante em seu santo de devoção a quem a prece é dirigida. Sorridente, fica a esperar seu presente de boa moça de família… que passa sempre acompanhado daquelas que não têm tão boa fama assim.
Indulgente e dissoluta, se retira carrancuda para a cama, praguejando contra o terço o recente desapreço pela sua fé. É nos sonhos infindos, de filhos fortes e uma casinha sob a luz da lua, que restabelece a esperança de sua função nessa vida de mulher: manter no mundo a crença no amor.
 
Marina Costa