domingo, 25 de janeiro de 2015

Limiar

 
Joga a moeda para cima rezando para que perca. É tão mais simples deixar tudo para trás... Olhando com esperança o brilho do metal no ar, ora com fervor para que o destino mande a ordem de andar. Nômade de si mesma, aceitará resignada uma nova estrada e quando perguntarem porque se foi, porque desistiu, poderá relegar ao desconhecido o peso de sua decisão. Lavar as mãos e enterrar na sombra do passado todo o presente que não se acha em condição de receber.
 
Caiu a moeda, o barulho desperta os devaneios. Quica na calçada e rola bamboleando, lenta e indecisa, como quem a jogou. Inesperadamente, uma pedra no caminho a faz saltar e o bueiro a acolhe, indiferente e escuro. Decepção. Volta aos ombros o peso da escolha da própria vida. Fica a lição da moeda: não há ir ou ficar. O caminho será sempre um salto no abismo. Duas coisas apenas permitem um pulo sem dor: abrir as asas e cair de pé.
 
Marina Costa

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Revertério


A notícia chegou tarde, ainda assim inebriante. Nada demais as poucas palavras diziam, mesmo sendo suficientes para encher a barriga dela de borboletas. Mas antes que causassem o prometido revertério, ela correu ao banheiro e vomitou outro sonho. Andava a preferir a realidade amarga da bílis a qualquer doçura fingida de alguém que não existe.

Marina Costa

sábado, 10 de janeiro de 2015

Cantiga


Sente o vento como fluido de vida ao perpassar por entre os dedos, acaricia o cabelo envolvendo a mente em ecos do passado... a brisa do fim de tarde devolve lembranças. Escuta no silêncio da noite que se propõe o próprio coração bater. E ele canta a mesma canção que todos os dias pela manhã finge esquecer. É de tu, tu, tu...
 
Marina Costa

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Novena

Vai às janelas todos os dias, logo após a reza das cinco, banhada e florida, confiante em seu santo de devoção a quem a prece é dirigida. Sorridente, fica a esperar seu presente de boa moça de família… que passa sempre acompanhado daquelas que não têm tão boa fama assim.
Indulgente e dissoluta, se retira carrancuda para a cama, praguejando contra o terço o recente desapreço pela sua fé. É nos sonhos infindos, de filhos fortes e uma casinha sob a luz da lua, que restabelece a esperança de sua função nessa vida de mulher: manter no mundo a crença no amor.
 
Marina Costa