segunda-feira, 30 de março de 2015

Murilo, o Arguto


     Feito de pétalas rasgadas e sons estúpidos, Murilo me oferecia seu amor oco e disforme. Quando éramos ambos crianças, brincávamos com as bolhas de sabão que saíam de nossas bocas escancaradas e ríamos. O crescimento dos corpos nos tirou a diversão para trazer a aflição dos desejos luxuriosos. E nos braços de todos, hora eu, hora Murilo, éramos para um e outro cada vez mais intangíveis.
     Viajei assim, com uma mala vazia e um batom de quinta, lançando olhares a todos os pares de calças do trem. Sentia que Murilo comia com os olhos quaisquer pernas roliças que visse. E ainda que tenhamos comprado destinos separados, nos vimos sozinhos no sopé da mesma serra, de mãos dadas frente à mesma porta azul onde uma cama de casal nos esperava desfeita.
     Ele, contrito, me deu mais uma vez aquele amor esfrangalhado. Eu, arrependida, lhe ofereci meu colo usado. E enquanto a lua subia fina e fria no céu ainda claro, a estrela mais brilhante gargalhava ensandecida, achando graça daquele casal tão perdido e só.
 
Marina, a Intangível
(Marina Costa)

terça-feira, 10 de março de 2015

Impressão


Vejo você sorrir e sorrio junto, aspirando teu cheiro que perfuma o travesseiro. Aconchego meu rosto na palma da sua mão quente enquanto sinto seu braço firme enlaçando minha cintura. O aperto suave de outro abraço espalha em mim o calor vivo do peito seu. E ainda que o tempo não passe, quando acordo apenas me resta a lembrança sentida no sonho. Mais cinco minutos de olhos fechados fico, para sentir outra vez seu corpo impresso no meu.
 
Marina Costa

quinta-feira, 5 de março de 2015

Sentidos


Ela desamarra as sapatilhas e joga aos pés da cama a roupa usada. Sob a cômoda óculos e relógio são arremessados com enfado. Deita sem pensar, dado o cansaço sobre os ombros curvados. Entretanto um suspiro depois, não consegue adormecer. Com os olhos fechados sente correrem lágrimas silenciosas. Não é que a lua não tenha nascido ou faltem estrelas no céu. A solidão muda de sua alma é o que aflige. Faz lembrar que só assim pode manter surda a inteligência que tanto preza.
 
Marina Costa