segunda-feira, 30 de março de 2015

Murilo, o Arguto


     Feito de pétalas rasgadas e sons estúpidos, Murilo me oferecia seu amor oco e disforme. Quando éramos ambos crianças, brincávamos com as bolhas de sabão que saíam de nossas bocas escancaradas e ríamos. O crescimento dos corpos nos tirou a diversão para trazer a aflição dos desejos luxuriosos. E nos braços de todos, hora eu, hora Murilo, éramos para um e outro cada vez mais intangíveis.
     Viajei assim, com uma mala vazia e um batom de quinta, lançando olhares a todos os pares de calças do trem. Sentia que Murilo comia com os olhos quaisquer pernas roliças que visse. E ainda que tenhamos comprado destinos separados, nos vimos sozinhos no sopé da mesma serra, de mãos dadas frente à mesma porta azul onde uma cama de casal nos esperava desfeita.
     Ele, contrito, me deu mais uma vez aquele amor esfrangalhado. Eu, arrependida, lhe ofereci meu colo usado. E enquanto a lua subia fina e fria no céu ainda claro, a estrela mais brilhante gargalhava ensandecida, achando graça daquele casal tão perdido e só.
 
Marina, a Intangível
(Marina Costa)

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