sexta-feira, 15 de maio de 2015

Dez encontros


Ele se levanta, sonolento e ressaquiado, a resolver se engole a bílis ou a despeja junto com o arrependimento da noite anterior. Conclui pela nona vez no mês que amor mal resolvido e bebedeira são dispostos que se atraem. Toma um banho frio e tentado a passar todo o dia revolvendo lembranças, pega uma literatura avulsa e bate a porta atrás de si, irritado. Talvez se sentar sobre uma árvore, a vislumbrar silhuetas ao ar livre, acabe por se lembrar menos dela…
 
Ela abre os olhos e enxerga, constrangida, uma companhia ao seu lado. Fecha as pálpebras com força na esperança de que o desconhecido desapareça, mas segundos depois se vê forçada a sorrir um bom dia amarelo. Com pressa e desculpas vazias se veste ansiando ganhar a rua onde a brisa matutina talvez limpe um pouco da culpa que lateja. Entra em um café e o gosto da bebida quente evoca na boca um hálito distante. Suspira desanimada, sem esperanças de esquecê-lo.
 
Marina Costa

terça-feira, 5 de maio de 2015

Cores de uma nova canção

Imagem por Hache Ortiz Pics
 
Pisei num país florido ao ouvir da boca de um desconhecido as cores vivas com que pinta um lugar mal dizido. Fechei os olhos e aspirei o aroma quente das pessoas sorridentes ainda que sofridas. Senti na pele a efervescência dos sons que denunciam a melancolia dos olhos e ressaltam a força dos acuados que não deixam de sonhar. Encantada e sorrindo, abracei Bogotá.
 
Marina Costa