sexta-feira, 15 de maio de 2015

Dez encontros


Ele se levanta, sonolento e ressaquiado, a resolver se engole a bílis ou a despeja junto com o arrependimento da noite anterior. Conclui pela nona vez no mês que amor mal resolvido e bebedeira são dispostos que se atraem. Toma um banho frio e tentado a passar todo o dia revolvendo lembranças, pega uma literatura avulsa e bate a porta atrás de si, irritado. Talvez se sentar sobre uma árvore, a vislumbrar silhuetas ao ar livre, acabe por se lembrar menos dela…
 
Ela abre os olhos e enxerga, constrangida, uma companhia ao seu lado. Fecha as pálpebras com força na esperança de que o desconhecido desapareça, mas segundos depois se vê forçada a sorrir um bom dia amarelo. Com pressa e desculpas vazias se veste ansiando ganhar a rua onde a brisa matutina talvez limpe um pouco da culpa que lateja. Entra em um café e o gosto da bebida quente evoca na boca um hálito distante. Suspira desanimada, sem esperanças de esquecê-lo.
 
Marina Costa

2 comentários:

  1. Você é brilhante, garota. Não entendo muito de literatura além do que eu sei identificar que eu gosto. Tenho uma Clarice Lispector na minha mesa o ano todo, por poucas vezes lembrada, mas que fica o ano todo aqui, porque eu mereço tê-la perto em alguns momentos necessários. E este texto me fez pensar na Clarice, meio empoeirada na minha mesa, que eu acho que te aplaudiu aqui. haha

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  2. Saudades de te ver, com os olhos, por aqui! Gratidão!

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