terça-feira, 30 de junho de 2015

Cor

 

Era uma ideia, uma idealização, um pensamento sem fundamento que assim que passou o tempo virou fumaça branca. Mas felizmente não se perdeu nas dobras do esquecimento. Por mim ou por ti ficou por aí e aqui a mostrar, vez ou outra, que vivia sua risada, seu olhar para além, seu conhecimento de vida. Seu sim e meu não, meu vou e seu fica. E agora pensando outra vez nisso, começo a sorrir. E então me pergunta qual é a piada. E eu gargalho. É a vida ser colorida.
 
Marina Costa

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Yule


Bate no vidro da janela um grosso pingo de chuva e sob o telhado desaba a tempestade torrencial, fazendo estalar paredes e trazendo o frio de fora para o aconchego de dentro. Sem luz e sem distração, eles se olham receosos de encarar a intimidade um pouco esquecida. Ela pensa em uma xícara de chá. Ele pega na estante um livro grande. Ela volta com canela e maçã. Ele começa a ler em voz alta histórias sem fim. Sorrindo, ela se senta. Feliz, ele a abraça. E assim o inverno chega, silencioso e escuro, soprando pelas frestas a arrepiar a rotina. Trazendo a necessidade esquecida de calor do com viver.
 
Marina Costa 

sábado, 20 de junho de 2015

Caídode

Créditos imagem: http://bzzn.net/14rjFKc

A asa partiu-se na queda e o anjo, ralado além de decaído, olhou com compaixão e desespero ao seu redor. De todos os castigos divinos sabia ser este o mais temido ainda que no seu caso tenha sido uma escolha do mais puro livre arbítrio. Não que não tenha se considerado tolo após a queda. Mas resolveu enfrentar com caridade cristã o que lhe aguardava. Pobre diabo, ainda que seja a metáfora adequada, ruim foi a escolha de seu próprio destino. Se a pasmaceira do paraíso o irritava, a cegueira trépida dos homens e mulheres, errantes joguetes, o faria regurgitar lições de catecismo jamais digeridas. E lá se foi o anjo de asa partida. Deixou atrás de si um rastro imaculado de penas. E à sua frente caíam,  à semelhança de triste chuva fina, lágrimas divinas.

Marina Costa

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Filhos


Em uma certa esquina, próxima à igreja de Santa Cruz dos Enforcados…

– Moça, me compra um leite para eu dar pro meu filho? Ele está faminto, sou pobre, mas desculpe interromper seu café da manhã assim viu moça. Eu não tenho onde morar, nem o que comer, minha esposa está comigo nessa estrada sem teto, mas vivemos assim em paz ainda que imundos, se humilhando aqui e ali, passando por ladrão ou drogado, os dois quem sabe… mas o que a gente tem mesmo é fome, moça. Eu tenho dezoito anos, ela dezesseis, o menino não fez nem um ano mas não era mesmo nem pra ter nascido, um peso nessa vida nossa que já era difícil… ele faz aniversário no mesmo dia da Xuxa, veja você! Hoje tem essa manifestação aí, andamos uns 5 quilômetros pra poder pedir pra essas pessoas de amarelo, afinal é gente brigando pelo país né, moça, e eu sou filho da pátria também né, quem sabe alguém não resolve brigar por mim…. Não quero muito mais nada da vida não, eu já até me cansei de pedir pra Deus, por isso to aqui pedindo pra senhora, pro meu filho hoje ter o que comer. Então moça, será que pode me dar um quilo de leite ninho?

Marina Costa

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Partitura


Ele chegou em casa certa tarde como as outras. Pegou o violão e sentou se aos pés da cama sem pensar. Quando posicionou-se pensando em Villa Lobos percebeu que não sabia o que fazer. Franziu o cenho e mudou o instrumento de posição. Nada lhe era familiar. Entre incompreendido e horrorizado, esticou as mãos frente aos olhos, tentando encontrar sinais de degeneração. Pensando em tratar-se de um pesadelo irreal, foi ao banheiro e lavou o rosto na água fria. Ao olhar-se no espelho constatou abismado que suas órbitas estavam ocas e seus ouvidos começavam a sumir.
 
Marina Costa

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Alvéloa

 
 
Tudo o que era para ser virou pó na memória do ontem, quando você fez as malas e me deixou só, sem ação. O tempo parou no momento e desde então só respiro sem que me bata mais o coração.
 
Marina Costa