domingo, 30 de agosto de 2015

Café

 
Sai pela janela meio aberta um aroma novo de madeira adocicada... ela passando pelo passeio aspira e se sente inebriada. Ele, que lê um jornal distraído,  pressente no ar algo diferente. O gato para de lamber os bigodes atraído pelo aconchego de algo quente. Na esquina, a criança entretida puxa a mãe pela saia a pedir uma xícara. Do lado de dentro, não é a manhã nova temperada com cheiro de café fresco que acontece. Pode haver algum engano, mas é amor, ao que parece.
 
Marina Costa

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Rusga


Sentada, emburrada, na quina da calçada, ela pensa ressabiada em todos aqueles disparates. Fechado em um silêncio casmurro, olha de rabo de olho a quietude magoada. Ela, calada, parece considerar os desditos sem fim. Ele, amuado, não sabe voltar atrás para pedir o sim. Ouve um suspiro e percebe na sua mão fria o calor acolhedor de outros dedos. Sente o sorriso que faz o coração amolecer. Com o abraço partido uma vez colado, respiram ambos aliviados. "Porque a calmaria da minha inconstância vem de você."
 
Marina Costa

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Por um desses acasos

 
Passam meses para um ano ir e nos encontrar ali, na soleira da porta, com olhos vazios e mãos abanando, pedintes de sentimento e entendimento da vida. Horas que escorrem e levam, diluídos, desejos insatisfeitos, ideias abandonadas, sorrisos contidos e abraços escusos. A bolsa cheia de frustrações, abandonadas nas covas da memória. É tempo de novos planos, novos projetos de ser humano, novas promessas de insípida melhoria. Mais amor, menos guerra, talvez ler poesia. Se não houvesse sonhos na passagem de outro ano não haveria porquê passar. Levantamos e entramos, fechamos a porta do passado e respiramos fundo para um novo mas já conhecido futuro. Haverão, sabemos bem, planos não realizados. Abandono e apego. Egoísmo acomodado. Mas há que se ter esperança de que tudo mude no virar do calendário. Do contrário, poderíamos simplesmente ficar a ver a areia cair. Seria então melhor saber que o tempo nos soterra sem olhar.
 
Marina Costa

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Oxitocina


Raia o sol amarelo ouro, o mundo estalando de tão vivo e o olho dela, com remela e ressaca, custa a divisar o limiar de um outro dia. Pela janela vem o canto de um bem te vi, a buzina de um apressado, a campainha do padeiro ciclista e o ar fresco da manhã nova. Apesar da dor de cabeça e da perda da mais recente memória, ela sorri. Agarra ainda sonolenta sua aspirina, fiel escudeira de segunda feira, e se prepara para sair. Afinal, já é mais que tempo de ser crescida.

Marina Costa

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Verter


E quando não se quer enfrentar o amanhã? Quando tudo parece sempre no mesmo lugar e um dia é só outro dia, mas se outro dia amanhecer outra vez a gente vai se despedaçar tal qual a madrugada ante os raios do sol que nasce? Pior que esse medo do imutável que não controlamos é a feitura de se fazer simplório para não atormentar quem a gente ama. Deus, como dói viver.
 
Marina Costa