quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Conveniências

Photo: Martin Gerten
 
"Pela lei, os declaro marido e mulher."
Nem mesmo se entreolharam. Engoliram em seco. Ele fingiu ocupar-se da caneta. Ela levou a mão à fronte numa alusão febril. Do modo que entraram, saíram e ainda que o peso do estado civil tivesse mudado, lá fora a vida parecia continuar clara e comum como antes. Apertaram-se as mãos e sorriram aliviados. Afinal então a obrigação com um mundo que não era deles, não causaria tanto estrago assim.
 
Marina Costa

domingo, 20 de setembro de 2015

Âmago

 
Sentada no banco branco ela abraçava os joelhos, perdida em um canto de sua alma tão difuso que nem mesmo Renoir poderia alcançar. Quando uma lágrima saudosa caiu dos olhos dela começou a soprar uma brisa mansa mas carregada de uma tristeza tal que minutos depois transformou-se em uma inquieta ventania. O vento parecia querer destruir o mundo tal era sua fúria e força. e mesmo não havendo nuvens no céu e o sol estalando de tão dourado, folhas, saias, cabelos eram jogados para cima como o brinquedo de um garoto emburrado. Apenas ela imóvel, parecia serena. Quilômetros dali, um homem tão impassível quanto as eras sentiu-se subitamente abalado pelo ar que de repente mudou. Estacou e por um segundo infinito fixou o olhar em uma árvore de onde parecia vir o eco de um sorriso perdido. Sem motivo aparente, ele desatou a chorar.

Marina Costa

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Amanhecida

Crédito imagem: Maria Gvedashvili
Ao chegar ao cume da colina, sentou-se exausta e dolorida, livre de objetivos mas vazia de perspectivas. Era ainda madrugada e os pés machucados da caminhada impediam o frio de ser sentido. Abraçou os joelhos e respirou profundamente sentindo mais do que nunca a real liberdade de estar só… de aceitar-se só e perceber na solidão o encontro de uma busca. Sorria, de alívio e de elevo por acreditar que nunca mais lágrimas noturnas viriam assombrar seus medos. Repleta de si, levantou a cabeça e divisou na silhueta de seus dedos os primeiros raios do amanhecer.
 
Marina Costa

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Às Doze


Capitu  me dizia que seus olhos eram mesmo de ressaca. Graças a esquizofrenia de Bentinho, ela não vivia sem beber. O pequeno Ezequiel, como boa criança que era, mantinha-se calmo e ocupado em um mundo onde não importava ser bastardo, enquanto a mãe de olhar no infinito, abria outra garrafa de bordeaux. No meio da penumbra daquela sala, na tensão daqueles amores feridos, eu me perdia em desesperanças de um calmo viver. Há que sempre se desejar o que não tem e seguir duvidando do que é bom demais para ser? Machado ergue os olhos sobre o pincenê enquanto Schopenhauer dedilha ao piano uma triste sinfonia solitária. Soam as doze no silêncio da incerteza.
 
Marina Costa