quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Às Doze


Capitu  me dizia que seus olhos eram mesmo de ressaca. Graças a esquizofrenia de Bentinho, ela não vivia sem beber. O pequeno Ezequiel, como boa criança que era, mantinha-se calmo e ocupado em um mundo onde não importava ser bastardo, enquanto a mãe de olhar no infinito, abria outra garrafa de bordeaux. No meio da penumbra daquela sala, na tensão daqueles amores feridos, eu me perdia em desesperanças de um calmo viver. Há que sempre se desejar o que não tem e seguir duvidando do que é bom demais para ser? Machado ergue os olhos sobre o pincenê enquanto Schopenhauer dedilha ao piano uma triste sinfonia solitária. Soam as doze no silêncio da incerteza.
 
Marina Costa

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