domingo, 25 de outubro de 2015

Dianóia

 
Apertou a mão dela com força e firmeza. Em retribuição, sentiu seus ossos estalarem. Ela não era uma dessas muitas que andam por aí, a entortar pescoços despertando apenas sensações físicas. Assim como ele, tinha fogo nos olhos. Respeitava seus colegas, do mesmo sexo biológico, pois acreditava que por serem machos era inerente a força em si. Mas quanto a elas, admirava as belas feições, os pares de pernas, bocas sedutoras e não passava disso. Não acreditava que rostinhos bonitos pudessem ter fibra. Até aquele dia. Seus olhos de carvão, sua mão de ferro, sua fala firme, sua eloquência cadenciada,  inebriavam tanto ou mais que seus cílios longos ou sua forma de ampulheta. Dessa vez, foi ele quem perdeu o rebolado. Emudeceu, estupefato. Gaguejou, tropeçou, deixou fugir o argumento e quase caiu. Ela, sorrindo triunfante, saiu da reunião tranquila. Mais uma vez deixou no chinelo marmanjos barbados. Sem precisar de ferramentas outras que o próprio raciocínio.
 
Marina Costa


terça-feira, 20 de outubro de 2015

Mulheres Vestidas


          Em 1953, Marilyn Monroe, símbolo maior do sex appeal ocidental até mesmo nos dias atuais, estampou a capa da primeira Playboy a ser lançada. Em 2015, Cory Jones, editor da mesma revista, solta ao mundo a seguinte frase: “Meu lado 12 anos está muito desapontado”. Isso se deve ao fato de que a Playboy (norte-americana) não irá mais reproduzir, de agora em diante, fotos de mulheres nuas. Com a pornografia barata proporcionada pela era digital, os editores entenderam que as mulheres de papel perderam seu “sentido”. E assim, a revista encerra seu principal motivo de ter sido criada. Em pleno século XXI, esse é o posicionamento de uma empresa frente ao mercado. O que orientou a ação da Playboy não foi a questão da objetificação do corpo feminino, como bem revela a frase de Cory (e há que se duvidar quanto a idade que ele afirma desapontada). A decisão da Playboy de deixar órfãs suas coelhinhas curvilineamente perfeitas trata pura e friamente da questão do lucro. Peladas impressas não estão dando dinheiro. Ponto. Não que as questões feministas* não tenham peso. Ao longo de todos esses anos de publicação, muitas (e muitos, sim homem também pode e deve ser feminista) foram contra, a favor, indiferentes. Mas o que pesa, como bem previsto por Marx, é o capital. Assim, há que se pensar se essa vitória (ou derrota) pode ir para a conta do movimento feminista. Desde que o mundo é mundo, ou de quando os homens tem 12 anos, se pretende a nudez feminina. Mas, aos trancos e barrancos, começa a se olhar para além do rebolado, da comissão de frente, do torneado das pernas.
         
          Ficarão com o orgulho ferido, as futuras musas que nunca serão capa da Playboy? Marilyn, se estivesse viva, reprovaria o ato? É fato que a vaidade feminina se ressente desse corte de orçamento. Por outro lado, vejam só, uma colunista falará “entusiasticamente” sobre sexo em uma coluna na reformulada revista. De certa forma, é a troca da bunda pelo cérebro. De certa forma, parece haver um fiozinho de esperança de que os homens cada vez mais apreciem também as mulheres vestidas. Mesmo se for por culpa da crise. Sempre haverá males que vem parabéns.
 
Marina Costa
 

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Em sina

 
 
Cansada, ela suspira. O dinheiro pouco, a solidão pesada, poucas são as glórias que enxerga no futuro vindas desse presente em que leciona. Ainda que cheia de boas intenções, ali, no meio daquele nada, quase se acha injustiçada da inteligência que lhe clareia as mediocridades humanas. Porque, se pergunta doída, não se conforma com o batido de forno e fogão? Revira os olhos na esperança de afastar aquele pensamento chulo e volta a olhar as provas que tem na mão. Um recadinho atrai sua atenção e ela se concentra na letra miúda e garranchada de Lucinha: "Professora, obrigada por estar conosco aqui nesse fim de mundo. Sei que poderia ser uma mulher muito maior mas se não fossem seus livros eu jamais aprenderia a voar". Com os olhos rasos, ela se pega a pensar nas tais linhas tortas de deus. E em um momento final de epifania, se percebe fundida em um saber humano acima da mesquinhez da vida de todo dia.
 
Marina Costa

sábado, 10 de outubro de 2015

Bahit

 
Conheci, assim sem motivo, um pequeno homem sozinho que fazia pedras. Debaixo do céu estrelado, logo que o dia morria, ele se sentava bem no alto de um morro e começava a declamar poesia. Eram assim umas palavras bonitas, que faziam sentido só no eco do coração, parecendo  para os ouvidos sãos martelar infindo e sem tipo. Mas de cada vez que sua boca se abria, dos céus caía uma rajada brilhante e aos pés do poeta da noite, minúsculas plaquetas brancas como a lua iam se amontoando. Ao final da madrugada, antes do raiar do primeiro raio, ele sumia detrás de um cacto (ou de uma outra moitinha qualquer) e a pilha construída na noite anterior ficava firme, como criatura teimosa a testemunhar a divindade de seu criador. O povo admirado, que de noite nada via além de estrelas cadentes, se perguntava que espírito da natureza podia fazer aquele trabalho, tão bagunçado mas ainda assim tão equilibrado…
Eu ria por dentro da falta de fé de gente que pisa nas pedras das costas do mundo mas não entende que é feita da mesma matéria… E despistando, como quem não quer nada, pegava uma pedrinha da pilha e carregava pra casa, mais um amuleto sagrado, pedacinho a pedacinho tentando terminar uma imensa coluna que me levará até o reino dos deuses caídos. Mais esperta que João, meu pé é feito de pedras e ficando pronto jamais poderá ser abatido. Degrau por degrau eu sei que logo logo vou alcançar as estrelas…
 
(Bahit é o nome dado a pequenos seres sub aquáticos de forma humana que segundo os Zo’é – tribo indígena amazônica – criam, moldam e cuidam das pedras…)
 
Marina Costa

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Monodia


Longe, onde o vento se curva, a terra derrete e o olho esmorece frente tanto o que ver, o peito suspira, o coração aperta e a saudade que bate já não é mais de querer. A falta que faz é sentir. O desejo que grita é viver.
 
Marina Costa