sábado, 10 de outubro de 2015

Bahit

 
Conheci, assim sem motivo, um pequeno homem sozinho que fazia pedras. Debaixo do céu estrelado, logo que o dia morria, ele se sentava bem no alto de um morro e começava a declamar poesia. Eram assim umas palavras bonitas, que faziam sentido só no eco do coração, parecendo  para os ouvidos sãos martelar infindo e sem tipo. Mas de cada vez que sua boca se abria, dos céus caía uma rajada brilhante e aos pés do poeta da noite, minúsculas plaquetas brancas como a lua iam se amontoando. Ao final da madrugada, antes do raiar do primeiro raio, ele sumia detrás de um cacto (ou de uma outra moitinha qualquer) e a pilha construída na noite anterior ficava firme, como criatura teimosa a testemunhar a divindade de seu criador. O povo admirado, que de noite nada via além de estrelas cadentes, se perguntava que espírito da natureza podia fazer aquele trabalho, tão bagunçado mas ainda assim tão equilibrado…
Eu ria por dentro da falta de fé de gente que pisa nas pedras das costas do mundo mas não entende que é feita da mesma matéria… E despistando, como quem não quer nada, pegava uma pedrinha da pilha e carregava pra casa, mais um amuleto sagrado, pedacinho a pedacinho tentando terminar uma imensa coluna que me levará até o reino dos deuses caídos. Mais esperta que João, meu pé é feito de pedras e ficando pronto jamais poderá ser abatido. Degrau por degrau eu sei que logo logo vou alcançar as estrelas…
 
(Bahit é o nome dado a pequenos seres sub aquáticos de forma humana que segundo os Zo’é – tribo indígena amazônica – criam, moldam e cuidam das pedras…)
 
Marina Costa

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