quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Em sina

 
 
Cansada, ela suspira. O dinheiro pouco, a solidão pesada, poucas são as glórias que enxerga no futuro vindas desse presente em que leciona. Ainda que cheia de boas intenções, ali, no meio daquele nada, quase se acha injustiçada da inteligência que lhe clareia as mediocridades humanas. Porque, se pergunta doída, não se conforma com o batido de forno e fogão? Revira os olhos na esperança de afastar aquele pensamento chulo e volta a olhar as provas que tem na mão. Um recadinho atrai sua atenção e ela se concentra na letra miúda e garranchada de Lucinha: "Professora, obrigada por estar conosco aqui nesse fim de mundo. Sei que poderia ser uma mulher muito maior mas se não fossem seus livros eu jamais aprenderia a voar". Com os olhos rasos, ela se pega a pensar nas tais linhas tortas de deus. E em um momento final de epifania, se percebe fundida em um saber humano acima da mesquinhez da vida de todo dia.
 
Marina Costa

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