segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Aqui não dá mais

 
A vontade de sair de onde se está é latente e permanente em qualquer animal vivente e dotado de liberdade de movimento. Aqueles paralisados também a  sentem, desejam se mexer mas são obrigados a engolir em seco o ímpeto de se locomover. Andar, que seja para frente, para o lado, para trás por vezes, faz parte da natureza cíclica das coisas que vão. Mas há alguns que teimam em complementar o movimento, ou vontade dele, com disparates. Acontece em algumas  listas de “Brasileiros em algum lugar”, cuja ideia inicial é ajudar aqueles que vão sair do país. Vez ou outra, muitas reconheço infeliz, os olhos são obrigados a ouvir que se sai daqui porque todo o mal reside neste país verde amarelo. É a cultura, são os políticos, a pobreza, a fome, a maldade. A corrupção, a miséria, os coxinhas, os esquerdopatas. O bolsa família, o natal que chega mais cedo, a minha mãe que não quer me deixar fumar um. E tudo vira justificativa para jogar lama no país que se vive e dizer que qualquer lugar é melhor e aqui não dá mais.
 
Meus caros…
Aqui não dá mais. A corrupção dilacera o país e nossos esforços de boa gente são jogados pelo ralo. Colocando a mão na consciência, somos todos culpados. Pois esse mal, herdado ou criado, está entranhado nas nossas mais pequenas atitudes do dia a dia. No troco errado para mais que recebemos, silenciosos e sorrateiros, na padaria. Na gasolina adulterada que vendemos para lucrar centavos a mais. No seguro agregado ao empréstimo para alguém que precisa de um teto para morar. Na cópia alterada do artigo alheio para titular em uma universidade que o governo vai pagar. E aqui e ali vão-se abrindo buracos na dignidade do brasileiro, na concepção distorcida do que somos enquanto nação. Podre. Azedada pelas nossas próprias mãos. Porque reina entre nós, canarinhos, a cultura de que o outro é sempre o ladrão, o mal elemento, quem devemos evitar. Somos cada um, a honestidade e pureza em pessoa. Nossa grama é mais verde e o esgoto do vizinho é que cheira mal. Por isso, cortar esse mal pela raiz e sair logo deste país de eterno carnaval. Eu digo que fico. E espero para assistir vosso embarque. Vão com Deus ou sem ele, por favor. Mas limpem o país dessa mediocridade de pensamento. Ou ficaremos todos, para sempre, sujos em berço esplêndido.
 
Marina Costa

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Cacos


 
As horas se arrastam chocadas contra o dia, tudo ao redor parecendo quebrado, carente de junção. Dentro, soltos, chacoalham os pedaços e o que se ouve é o ruído oco de algo vazio e seco, como barro da criação. Olha para os lados e infinitos cacos esperam, ao menos por um segundo, nova atenção sobre si. Mal sabem que também este espera, no meio de tanta busca, alguém que lhe estenda uma mão verdadeira e resgate do meio da tormenta o desespero com o qual navega na vida. Somos todos partidos, pensa enquanto labora. E com as costas da mão limpa a lágrima absurda que cai por não haver escolha outra que não viver aos pedaços.
 
Marina Costa

domingo, 15 de novembro de 2015

Mil fins



Pela terra seca, mil litros de sangue já verteram antes do hoje. Das rosas que nascem, lágrimas saudosas verterão mil mais. O amanhã trará outras lamúrias, e assim o jardim encharcado novamente florescerá, de gentes, de futuros e de sonhos. Mas cada um destes de novo morrerá como ninguém, pois o fechar dos olhos, o apodrecer da carne revela o nada do qual somos feitos. No infinito, que nunca saberemos se está mesmo lá, ecoará o choro do ego morto. Alcançando as estrelas para além da luz, tal sinfonia de lamento em mil anos vezes mil outros silenciará, no frio do cosmos. E é este o caixão eterno de nossa efêmera vida. Sinta agora na boca o gosto da fantasia humana pelo tempo que ainda resta pois urge a colisão do fim. A morte é fato, o vazio é certo. E sobre ambos talvez só o amor faça algum sentido.

Marina Costa

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Pedidos


Ambos olhavam a água cair enquanto o sol esquentava seus corpos em ebulição. Ela sentou-se de um pulo, olhou o homem ao seu lado e cansada de pensar soltou de supetão: “quero casar com você”. Ele arregalou o olhar aos céus, como se implorasse misericórdia. Sentou-se e enfrentando uma crise de tosse, ria enquanto tentava respirar. Ela sentiu-se contente como sempre, pelo estrago que acabava de causar. Na semana seguinte, enganando padre e parentes, trocaram aliança e cumplicidade debochada em uma igrejinha caindo aos pedaços numa curva empoeirada pelo tempo indiferente. De fato, há muito já estavam casados. Só queriam brincar de ser como todos para terem certeza de que eram os dois. E só.
 
Marina Costa