sábado, 5 de dezembro de 2015

Manifesto ao Idiota mais Próximo


Eu, em nome de todas as pessoas que buscam um sentido para o ato de comer e dormir, que acredita que raciocinar sobre nossas necessidades fisiológicas é só mais uma prova de que há algo mais entre céu e terra - porque afinal nos foi dada a capacidade de pensar - eu, que não admito o que acontece na Ucrânia, no Egito, em Brasília mesmo vivendo a quilômetros de lá, eu, que estou cansada de ser interpretada como um poço de segundas intenções, venho a público manifestar minha profunda revolta e insatisfação com as pessoas que compõe esse meu corpus social. Me aborrece sua capacidade de esquecer a amplidão do mundo e se limitar a seu mal lavado umbigo. Me entristece ver suas artimanhas fingidas de conquista interessada para satisfação imediata de seus luxuriosos interesses. Me enoja sua capacidade de rir do alheio enquanto sua vida vai bem ou ao contrário chorar lágrimas de crocodilo por questões estúpidas e triviais enquanto em outros lugares, a fome assola, a violência aleija e a corrupção destrói.
É meu desejo que os humanos acordem, algum dia, desprovidos dos seus bens e entes queridos, para imersos em seu próprio egoísmo entender ao menos minimamente porquê vivemos em sociedade.
Somos animais mal armados, meus contemporâneos, e por isso nos unimos, para vencer o ambiente que nos cerca e nos poucos momentos de paz entre uma refeição e outra, podermos admirar o sorriso desdentando dos velhos que seremos, a ignorância sadia de um pequeno que fomos, o colo quente de alguém que amamos por tudo que tem para nos mostrar e não para nos dar.
Como pode, pelo amor do dinheiro se questionem, tanta afetação, tanta luz artificial, tanto lixo filmado e esfregado em nossa cara nos momentos de lazer sem que façamos algo?
Eu grito: tem alguém acordado, por favor?
Ao meu redor está escuro e eu sofro por estarmos todos cegos. E surdos.
Manifesto minha vontade de partilhar saberes. De acalentar. De pensar sobre para onde e porque.
Aqueles que se sentirem minimamente interessados e desprovidos de interesses além que a própria sede de saber e partilhar, porque nada iremos ganhar além da satisfação de raciocinar, peguem suas flautas, seus livros e diários, ideias mirabolantes e sigam-me.
Aos outros, que só buscam mais um folhetim novelesco, passem adiante e peço, não cruzem meu caminho. Tomem-me por um mendigo ou uma barata, quem sabe. Não me firam o orgulho humano com vossa presença oca.
É difícil e dolorido pensar, meus caros. Mas triste e desanimador é o vácuo que insistimos em abrir em nossas cabeças para encher de dinheiro inútil, amores estúpidos e diálogos vazios.

Marina Costa

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