terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Sanga

 
 
Com muito cuidado ela ia pisando o terreno desconhecido. Passaram alguns minutos e tudo parecia igual, claro e limpo. Olhando a paisagem, acabou por esquecer-se de que nunca estivera ali, a não ser em ilusões... E seguiu andando, cada vez mais absorta na claridade do dia e na vida que emanava de cada respiro. Certo momento, o pé escorregou em um declive não previsto. O joelho bateu no chão levando por cima a outra perna e num piscar de olhos o corpo inteiro rolava ribanceira abaixo. Arrastou pelo caminho muito espinho, muito galho e muita pedra que em redemunho laceraram suas roupas, sua pele, seu pensar. Caiu no fundo da sanga, como um bicho do mato qualquer, sem saber o que a atingira e sem entender como chegara ali. Passados alguns minutos compreendera que tudo não passou de uma armadilha. Fechou os olhos para chorar, pois pensar já se mostrava tarde demais. Talvez na manhã seguinte poderia, com muito cuidado, tatear paredes em busca de uma saída.
 
Marina Costa

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Egos


Quando a noite chega arrombando a porta e o frio entra atrevido pela fresta, quando o céu finalmente escurece preto e a gente percebe que a luz do mundo se foi, o peito fica mais apertado, o coração mais partido e o medo de morrer estrangula cada pedaço da pele que sente. Nem a despensa cheia, nem a lembrança de todo sorriso é capaz de afastar a tristeza que se instala ao ouvir o relógio anunciando madrugada e meia. O pensar sem cessar lateja a cabeça e lágrima atrás de lágrima derrama-se a vida que padece, mas ainda não findou. É que a falta do seu eu que não está aqui com o meu me faz lembrar que o amanhã definitivo não volta. Durmo, febril e sem sonhos, ansiando pela benção de outro dia de ilusão.
 
Marina Costa

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Olvidado F. C.


Ele corria, tranquilo apesar da pressa, pensando na vida do dia e no futebol da noite, satisfeito a considerar ambos vitória certa. Foi quando, distraído, enfiou o pé num buraco do passeio e caiu. Bateu a cabeça no ponto de ônibus e ficou alguns minutos desacordado. A multidão já se aglomerava quando então voltou a si. Perguntaram quem era, se estava bem. Ele respondeu que "sim, estava ótimo foi só um tombo bobo, claro que sabia quem era, oras". Rindo amarelo, bateu o pó da roupa e voltou a correr. Trabalhou o dia todo, fumou o cigarro depois do café, ligou para a mãe avisando que não ia jantar. Tomou uma no bar e contente como antes foi pra casa.
Ao entrar no apartamento, notou algo estranho. Acendeu a luz. Deu de cara com bandeirolas, uniformes, faixas, apitos, bonecos humanóides com camisa de time. Pisou um passo atrás e olhou o número da porta, para ter certeza de que definitivamente não entrara na casa errada. Os móveis eram os seus, o cheiro era o mesmo já conhecido mas não fazia a menor ideia de como aquelas tranqueiras haviam ido parar ali. Só podia ser uma troça de seus amigos que, coincidentemente, não paravam de ligar.
- Zé, cadê você?
- Em casa uê, onde mais iria estar?
- Pô Zé, estamos te esperando, para entrar no estádio!!
- Estádio? Eu?
- Zé, quer parar de zoação? O jogo já vai começar!
Ele desligou, irritado. Aquela brincadeira já havia ido longe demais. Começou a juntar a quinquilharia torcedora, enfiou tudo em um saco preto e colocou no lixo. Tranquilamente, sentou-se no sofá, tirou os sapatos e abriu uma soda. "Hunf", pensava, "cada coisa que a gente tem que aturar desses fanáticos". E esqueceu o assunto assim que começou a novela das nove, que sem entender por quê, assistia com atenção. 
 
Marina Costa

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Ele de preto, Ele de rosa

Crédito imagem: Tom Privitere e Brian Edwards em www.nj.com
 
Mais um dia comum raiou na casa dos Silva. Pouco menos comum que os demais, já que era domingo, dia da diversão do João. Cedo ele já pulou na cama dos pais pedindo com olhos de cãozinho faminto o que tinha a certeza de conseguir. Um sorriu para o outro e juntos levantaram. Entre copos de leite com chocolate, bolo com geleia de ameixa, pão dormido com queijo e banana amassada com aveia todos riam das travessuras alimentares do pequeno João. Olhavam-se satisfeitos. Apressados pelo pequeno, foram se aprontar para a aventura fora das quatro paredes. Saíram os três. João corria na frente, saltitante em sua fantasia de princesa, a custo conseguida como presente dos pais. Estes caminhavam um pouco atrás, de mãos dadas. Ele de preto e ele de rosa. Era outro dia feliz para uma família que se permitia.
 
Marina Costa

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Arrulho

Crédito imagem: Autogiro Illustration

Ela sentou-se em frente à mesa da gerente. Muito  branca, muito loira, muito tímida, pedia implorando quase, que lhe dessem um empréstimo para fazer seu futuro. Entre uma e outra palavra, soltava um arrulho. A gerente, intrigada, tentava entender de onde vinha aquele barulho. Ouvia. A moça, clara como o dia, começou a contar seu plano de vida. E a medida que o sonho fazia-se em orações, ela ia abrindo os braços e enchendo o peito. Era claramente um sonho impossível, pensava a gerente, lembrando dos padrões negros e cinzas do capital… mas a menina falava tão cheia de vida que a mulher do dinheiro não soube dizer não. E quando a pequena compreendeu que conseguira, soltou um pio de alegria, subiu na mesa, bateu as asas e saltou janela a fora, arrulhando de emoção.
 
Marina Costa

terça-feira, 5 de julho de 2016

Bichos



Espalhados pela mesa, dezenas de pedaços de papel colorido. Amarelo, verde, uma profusão de brancos em diferentes tons. Para cada um deles uma data, um telefone, um lembrete, uma cobrança qualquer. Ao final do dia, exausta, ela respirou fundo para conter o choro que outra vez lhe inundava a garganta. Era viva demais para exercer tarefas tão mortas – pensava. Foi quando passou correndo, pelo chão do escritório vazio, um rato de porte considerável. Ela ficou abismada. Surpresa e surpreendida, observou a criatura pegar no chão um pedaço amanhecido de rosquinha, se deliciar ao roê-la com seus grandes dentes tortos para em seguida guinchar de alegria. Jura ainda que a viu lamber dedos e beiços antes de correr de volta para o buraco onde provavelmente correria para os esgotos ganhando enfim a liberdade da barriga cheia. 20 minutos depois, ela sorriu, lúcida. Pegou a caixa de clipes, organizou os papéis por cores, desligou o computador e saiu. Não passou mais nem na porta do escritório, dizem. A cadeira que ocupo ganhou a saudável alcunha de ratazana. Só sei que todos os dias me pergunto quem são os ratos, afinal.
 
Marina Costa

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Disfemismo

 
Jovens. Sorridentes. Sem maldades ou demônios. Rodopiam enquanto esperam um destino qualquer no ponto de ônibus. Ele belisca suas costelas. Ela puxa seu capuz. Unem seus rostos e cantam um som sem sentido que faz rir. O mau humor dos velhos, a pressa dos engravatados, nada parece atingir. Ele, anuviado em sentimentos, atento a cada piscadela dela, não quer ver o tempo passar. Não corre da chuva que chega, não pede mais nada da vida, só respirar o olhar. Um dia, soube de chofre, que ela foi passear em outros jardins. Saborear outro mel, conhecer sonhos mais soltos. Ele não compreendeu. Não aceitou, não arrefeceu. Noite alta, no quarto em silêncio, com travesseiro e olhos chorosos, aquela vida tirou. A moça fechou para sempre os cílios, calou para sempre os lábios e todos concordaram que foi amor. Tempos depois seu coração sombrio se acostumou com a tragédia e arrumou outro alguém. Ela virou estatística, a engrossar o caldo das meninas avoadas que não conseguem cuidar de si. O que ninguém percebeu é que a vida que ele ceifou não foi por querer, não foi por amar, nem foi por sofrer. Foi porque acreditou como muitos que assim podia ser. O homem outra vez vingou. Saiu outra vez ileso e vivo dessa trágica história de horror.
 
Marina Costa

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Finanças


- Escutou isso aqui João?
(Silêncio).
- 77 milhões. E hoje não arruma nem uma mulher para dar uma banho nele, doente e sozinho do jeito que vive...
(Desinteresse).
- Vê se pode, 77 milhões...
- Dinheiro não é de Deus não, José.
- Que que foi João?
- Dinheiro. É coisa de Satanás.
- Que coisa de Satanás o quê. O homem que é um descontrolado. Coisa de Satanás é ser pobre, ficar rico e ficar pobre de novo!
- Né coisa de Deus não. Jogo. Imagina quanto dinheiro de pão pai deixou ali... filho com fome...
- Deixa de ser besta homem. Não é cassino, nada disso não sô. Jogo é jogo horas!
- Eu ganhei muito no bicho. E agora tô aqui. E tô feliz. É de Satanás. Dinheiro de suor é que é de Deus.
- De Satanás né? Mas pega 77 milhões e leva lá pro seu pastor pra ver se ele não aceita...
- Mas aí tá abençoado. É diferente.

No banco da praça, Satanás maltrapilho pedia esmolas. Seu chapéu furado e vazio poucas vezes era notado pelos passantes que entravam na igreja. No Banco do lado, Deus contabilizava os lucros e repassava mais aos mais ricos. Enquanto os querubins, donos de pequenos botecos, tentavam equilibrar impostos e sonegação para não quebrar.
 
Marina Costa

domingo, 5 de junho de 2016

Andarilhar

 
Vou tomar de assalto aquele velho navio. Não é justo que ele se ancore por todos esses anos enquanto há tanto no mundo para ver. Vou tomá-lo à força para que na perda você perceba a necessidade gritante de se mover. Tanta tempestade por desabar, tanto sol por nascer, tanta terra verde para pousar. Suba a âncora dos seus pés, ice as velas que você prende com tanto medo e lança-se ao mar do desconhecido. A montanha não vem e não vai sair de lá. São as suas pernas, guiadas pelos seus sonhos, que vão te fazer subir mais alto, acima das nuvens, do lado da amplidão de tudo que é.

Marina Costa

terça-feira, 10 de maio de 2016

Abscesso


Olhava o céu translúcido e via na forma das nuvens o futuro que não tinha. Tal como este, era tudo distante, poroso, pronto a se desfazer perante a qualquer chuva pouca. Com olhos perdidos, garganta em nó, compreendeu que acabara sua fé na vida e que por mais que houvesse para onde olhar, perdera a vontade de ver. E assim o mundo ficou escuro, dia e noite se pareciam e os sonhos vazios não se diferenciavam do vivido. Tudo continuidade do nada. Dormir e acordar eram agora o mesmo lado da moeda.
 
Marina Costa

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Nimbar

 
 
Ela precisou da banqueta para pegar na prateleira mais alta a obra que números e letras diziam ser sua salvação. Com o coração aos pulos achou bem escondido e empoeirado o livro velho que brilhou ao ser tocado, ainda que por dedos de pouca maturação. Na sala quase vazia, sentou-se a um canto sombreado e reverente a beirar a beatitude, abriu com o  indicador e o polegar a capa em frangalhos. Silenciosamente esquecida da vida passou duas noites e três dias a desbaratar palavras incompreensíveis que dançavam um ritmo incomum. No terceiro anoitecer que se mostrava, ao despertar do torpor que se encontrava, tinha olhos límpidos em nova cor. Abandonou seus pertences agora sem valor e ainda de certa forma ofuscada, na prateleira errada o livro encaixou.
Ao atingir a porta foi fulminada... Do céu límpido caiu uma estrela alada que explodiu transformando corpo e carne em nuvem de poeira que sorria. Em poucos segundos, nem querer nem dizer existiam e neste instante o livro na estante virou pó.
 
Marina Costa

quarta-feira, 20 de abril de 2016

As Rosas Falam

 
 
 
Há poucos dias atrás escrevi sobre como fiquei enraivecida por ter recebido uma flor no dia da mulher. Hoje me deparei com a imagem acima e entrei em conflito comigo mesma ao ser feliz. Eu sorri. E procurei esclarecer essa sensação paradoxal. Começando da conclusão, falam as rosas. Mudas a mostrar que sua delicadeza sustenta a força da esperança na verdade. Belas, pela simetria, a fortalecer nossa crença em alguma calmaria depois da tormenta. O que dita o tom é o contexto. E de onde parte tal mimo oferecido. Nesta segunda feira, 18 de abril de 2016, levantei-me pouco disposta, sentindo em mim a derrota e querendo entender, sem ser por deus ou por uma família, qual o motivo de tanta perseguição ao povo, que sempre teve, para além dele, tão pouco. O dia foi escorrendo e vi outros como eu. Outros que sempre sorriam de volta mas que neste 18 não tinham expressão para dar. Perdidos, absortos, errantes em caminhos que antes eram tão firmes pois os buracos não pareciam assim tão perto. Essa vertigem, depurando daqui e dali, conversando, abraçando, apoiando, foi virando vontade de não deixar só alguém que pode até não ser como nós, mas que está também sendo oprimido, subjugado, escarnecido. Agora, nessa quase quarta feira, eu me sinto com certeza feliz. É o meio da semana, minha labuta pensa em se encaminhar para o fim junto com o baque do primeiro soco que passou. Ando para o lado que escolhi, onde promessas vazias são trocadas pela ação de corações honestos. Em lugar de exaltar a violência, flores são entregues com oferta de abraços. A derrota irônica em lábaro estrelado abre a porta para a luta vermelha, como rosas, que impetuosa mais uma vez começa.
 
Marina Costa

domingo, 10 de abril de 2016

Gênio


No fundo ela acredita que há em uma de suas muitas garrafas um gênio adormecido. Encolhido nascituro, do amniótico líquido despertará. Ela, sedenta de luxúria sorve ansiosa o elixir interminável na esperança de terem satisfeitos seus desejos egoístas. E pensa sobre cada um deles, sentindo-se a cada gole mais perto de tudo o que lhe fará ser alguém. Da última gota que seca no lábio rachado surge a figura monstruosa de um ser putrefato. Com um riso diabólico, ela se prostra a seus próprios pés e louca de usura enxerga a grama verde onde deitará o amor roubado, o querer doentio e toda a ilusão sobre a qual imagina viver.
 
Marina Costa

terça-feira, 5 de abril de 2016

Alarvado



Desde criança, ele engolia sapos. Girinos, proporcionalmente falando. Ao redor, pensavam que era coisa de criança. Engolia e ficava lá, amuado. Vez ou outra abria a boca quando menos se esperava e mandava para dentro uma larvinha distraída.
Crescendo não mudou muito. Falava pouco, uma voz agarrada, gosmenta. Ao menor sinal de contrariedade, sua ou da situação, embrutecia. Em silêncio, forçava o pomo de Adão e o sapo descia.
Certo dia, acordou nauseado. Trancou-se no banheiro sentindo a cabeça borbulhar. No espelho assustou-se com seus olhos vidrados. Mas ao invés de vomitar arrebentou a porta. Pôs pela primeira vez o pé para fora, sem tatear. À vista de um pequeno lamaçal, desandou a soltar cobras e lagartos de toda uma vida, de todo lugar. Tanto saía de sua boca babenta que ele foi se afundando no pântano da contrariedade que desaguava. Quando se ergueu da tormenta, percebeu-se pela primeira vez leve, feliz. E só.
 
Marina Costa

quarta-feira, 30 de março de 2016

Porta

Imagem: http://www.deviantart.com/art/shadow-locked-out-48687284

Do lado de fora esquecido ficou o momento antes dos olhos se fecharem. O sono inquieto de sonhos retorcidos foi subitamente acordado pela lembrança de algo que faltava. Na penumbra da noite alta, no torpor do despertar insone, a ausência da companhia se fez carrasca da consciência aturdida. De olhos rasos clamava em silêncio pela volta do passado. Mas a porta indiferente se mantinha inerte. Não iria abrir para fazer o tempo voltar.
 
Marina Costa

terça-feira, 8 de março de 2016

Me deram uma flor no dia da mulher


E fiquei muito mal humorada. Me deram também sorrisinhos, elogios, ensaiaram abraços, quiseram ressaltar minha ternura, me comparar com a tal da flor. Bem carrancuda, fiquei a me lembrar das argentinas mortas na semana passada como bichos (ou pior do que bichos) e criticadas por viajarem “sozinhas” (mesmo estando juntas). Me lembrei também de certa notícia que li sobre a “brasileira símbolo LGBT em Portugal” (palavras midiáticas) que a isso se elevou após ser brutalmente torturada e morta por adolescentes. Me passou pela cabeça os homens que mexem comigo na rua como se estivessem gracejando com um amigo de fundo de quintal. Pensei nas brincadeiras que certos meninos fazem a outros meninos se chamando de “maria”, “mulherzinha”, na intenção de se igualando a uma mulher rebaixar a masculinidade que creem possuir e da qual a sociedade os faz tanto se orgulhar. Por pensamentos como esses que os sorrisos dos outros me traziam rugas na testa. Fiquei pensando como pode essa data ser comemorada com rosas e bombons. Pior, como podemos nós mulheres sermos obrigadas, ainda que de forma inconsciente, a sorrir em agradecimento a tal “parabéns”. Eu quero sim um dia da mulher. Quero para mostrar que a grande maioria de nós continua preterida no trabalho, ainda é tratada como símbolo aprisionado do forno e fogão, fadada à instituição do casamento para que a sociedade não nos julgue peso que homem nenhum quis carregar. Quero esse dia para mostrar que continuamos sendo criticadas por viajar sozinha, por beber com as amigas, por usar roupas curtas sem que para isso deem justificativas melhores do que "não é costume de moça", "mulher direita não faz", "é perigoso não ter homem por perto". Eu quero um dia da mulher para todo mundo enfiar goela abaixo os índices de estupro, de violência doméstica, de assédio sexual e esperar que tal indigestão mostre o absurdo dessa celebração oitomarciana enquanto filmes, novelas, jornais e ditos profissionais de muitas áreas continuam ressaltando nossa fragilidade imaginada. O dia 08 de março, caros amigos floridos, é para mostrar que não dá para parar de cobrar um lugar que já era para ser meu. Da sua irmã. Da sua mãe, da sua esposa, da sua amante, da sua namorada, da sua companheira, de suas amigas, avós, tias e primas. Segue meu conselho: ao invés de comprar uma flor, nos ajude a levantar a bandeira da real igualdade entre mulheres, homens, trans, gays, lésbicas e todas as expressões que ser um humano abarca. E não é porque sozinha não damos conta não. É porque pessoa não escolhe gênero. Só que tem gente ainda sem entender que é justamente por isso que não deve escolher pelos outros.
 
Marina Costa

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Quase Memória


Começo a crônica com um pedido de desculpas aos colegas autores e aos leitores contínuos desse blog. Na semana passada fiquei impossibilitada de postar*. Nada físico, problemas tecnológicos considerando que eu estava em uma cidade pequena sem muita estrutura para acesso a internet. Sim, isso acontece ainda em alguns rincões desse país.
Fato é que para além das desculpas que espero serem aceitas mas que isso não me repita, fui a um festival de cinema nacional. Dentre a pluralidade contemporânea de boas histórias e opiniões, de novidades antropológicas e diversidade social exposta na tela, um filme baseado na obra Quase Memória de Carlos Heitor Cony me chamou atenção. Tony Ramos, minha desavença pessoal por motivos de friboi, interpreta um velho que encontra a si mesmo e em uma noite se põe a relembrar o passado. Não tem aqui nenhum spoiler, pois esse é praticamente o início da obra cinematográfica, então não torçam o nariz e assim que sair no circuito assistam ao filme.
Quero registrar que o que me inebriou foram as palavras. A história, uma mistura de ficção, realidade e cacos do passado do próprio autor, mostra a trajetória de seu pai, também jornalista mas principalmente um sonhador. O trágico cômico dramático da vida é não apenas revelado através da grandeza de nossas ideias frustradas pela praticidade rotineira assim como pelas belas palavras que em sincronia vão mostrando como são frágeis nossa memória assim como é frágil cada momento que vivemos e que se esvaem tão rápido quanto o piscar. O filme me tocou por falar de um assunto que me custa tanto a entender, esse agora a virar pó. E Tony, na pele de Carlos, ganhou um pouco da minha afeição pois soube com maestria mostrar que seus dramas são também os meus, os nossos de todo dia.
 
Marina Costa
 
*Crônica originalmente publicada no blog https://vidasetechaves.wordpress.com/2016/01/31/quase-memoria/ em 31/01/2016.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Inato


João era caixa de um banco na cidade grande. Quando criança, viu um quadro de Monet. Achou que era um desenho borrado pela chuva que caíra na noite anterior. Mas tendo a sorte de conhecer uma professora que não estava ali apenas para dar notas, descobriu tratar-se de um estilo. Descobriu haver escolas que formavam mestres. E desde então sua cabeça virou uma paleta com cores a lhe pintar, coloridamente, o futuro. Saiu de um interior empoeirado e seco, em busca do sonho de se tornar pintor.
Entrou em um ônibus e veio. Com suas economias de menino padeiro, comprou pincéis e tintas. Montou um ateliê. Acordava inspirado e sorria. Até que lhe adoeceu a mãe e acabou-se o pouco dinheiro que tinha. Aí ele procurou um emprego para sustentar o sonho de se tornar pintor. Mas o emprego o consumia. Passou a fazer horas extras pois o aluguel, a comida, a luz, tudo subia. E todos os dias enquanto ouvia o plic do computador, enquanto pagava as contas alheias ou entregava bolos de dinheiros a outros funcionários da vida, João via seu sonho perder a cor, de sépia a cinza, tornando-se por fim um pálido rascunho em preto.
Passaram-se os anos e João aposentou. Neste dia sorriu outra vez, pensando que finalmente poderia, dedicar-se ao sonho de ser pintor. Foi então que enfartou.
 
Marina Costa

domingo, 10 de janeiro de 2016

Conto de Cotidiano


Saindo do almoço desesperada a correr para não perder o horário, de cabeça quente pelas obrigações da semana que terminava inacabada, quase atropelada por uma ambulância que corria como eu, tonta e estabanada, atentei ao acaso para uma pequena coisa rosada que borboleteava do outro lado da rua. Vestida em um colã rosa, com sapatos rosas e coque no cabelo, envoltos por uma chuquinha rosa, coroada por asas plásticas, também rosadas, uma pequena menina pulava sem cansar a percorrer o caminho mágico, ainda que esburacado, do passeio da avenida. Tal era sua alegria que parecia ter estado sempre ali, em suas costas, aquela brilhante estrutura voadora, como algo muito natural e rotineiro, porque não. Me detive extasiada a observar a pequena borboleta-fada e não pude deixar de sorrir com júbilo quase infantil. Pronta a atravessar a rua e descobrir que sonhos sonhava aquela menina de grandes olhos abertos, ouvi uma  estridente buzina acompanhada de uma desnecessária ofensa à minha progenitora. O motoqueiro, apressado como a morte, não percebeu que nos encontrávamos, ainda que por poucos segundos, em um livro de histórias encantadas. E sua descrença trouxe o fim da história.
 
Marina Costa