domingo, 10 de janeiro de 2016

Conto de Cotidiano


Saindo do almoço desesperada a correr para não perder o horário, de cabeça quente pelas obrigações da semana que terminava inacabada, quase atropelada por uma ambulância que corria como eu, tonta e estabanada, atentei ao acaso para uma pequena coisa rosada que borboleteava do outro lado da rua. Vestida em um colã rosa, com sapatos rosas e coque no cabelo, envoltos por uma chuquinha rosa, coroada por asas plásticas, também rosadas, uma pequena menina pulava sem cansar a percorrer o caminho mágico, ainda que esburacado, do passeio da avenida. Tal era sua alegria que parecia ter estado sempre ali, em suas costas, aquela brilhante estrutura voadora, como algo muito natural e rotineiro, porque não. Me detive extasiada a observar a pequena borboleta-fada e não pude deixar de sorrir com júbilo quase infantil. Pronta a atravessar a rua e descobrir que sonhos sonhava aquela menina de grandes olhos abertos, ouvi uma  estridente buzina acompanhada de uma desnecessária ofensa à minha progenitora. O motoqueiro, apressado como a morte, não percebeu que nos encontrávamos, ainda que por poucos segundos, em um livro de histórias encantadas. E sua descrença trouxe o fim da história.
 
Marina Costa

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