quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Inato


João era caixa de um banco na cidade grande. Quando criança, viu um quadro de Monet. Achou que era um desenho borrado pela chuva que caíra na noite anterior. Mas tendo a sorte de conhecer uma professora que não estava ali apenas para dar notas, descobriu tratar-se de um estilo. Descobriu haver escolas que formavam mestres. E desde então sua cabeça virou uma paleta com cores a lhe pintar, coloridamente, o futuro. Saiu de um interior empoeirado e seco, em busca do sonho de se tornar pintor.
Entrou em um ônibus e veio. Com suas economias de menino padeiro, comprou pincéis e tintas. Montou um ateliê. Acordava inspirado e sorria. Até que lhe adoeceu a mãe e acabou-se o pouco dinheiro que tinha. Aí ele procurou um emprego para sustentar o sonho de se tornar pintor. Mas o emprego o consumia. Passou a fazer horas extras pois o aluguel, a comida, a luz, tudo subia. E todos os dias enquanto ouvia o plic do computador, enquanto pagava as contas alheias ou entregava bolos de dinheiros a outros funcionários da vida, João via seu sonho perder a cor, de sépia a cinza, tornando-se por fim um pálido rascunho em preto.
Passaram-se os anos e João aposentou. Neste dia sorriu outra vez, pensando que finalmente poderia, dedicar-se ao sonho de ser pintor. Foi então que enfartou.
 
Marina Costa

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