terça-feira, 5 de abril de 2016

Alarvado



Desde criança, ele engolia sapos. Girinos, proporcionalmente falando. Ao redor, pensavam que era coisa de criança. Engolia e ficava lá, amuado. Vez ou outra abria a boca quando menos se esperava e mandava para dentro uma larvinha distraída.
Crescendo não mudou muito. Falava pouco, uma voz agarrada, gosmenta. Ao menor sinal de contrariedade, sua ou da situação, embrutecia. Em silêncio, forçava o pomo de Adão e o sapo descia.
Certo dia, acordou nauseado. Trancou-se no banheiro sentindo a cabeça borbulhar. No espelho assustou-se com seus olhos vidrados. Mas ao invés de vomitar arrebentou a porta. Pôs pela primeira vez o pé para fora, sem tatear. À vista de um pequeno lamaçal, desandou a soltar cobras e lagartos de toda uma vida, de todo lugar. Tanto saía de sua boca babenta que ele foi se afundando no pântano da contrariedade que desaguava. Quando se ergueu da tormenta, percebeu-se pela primeira vez leve, feliz. E só.
 
Marina Costa

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