quinta-feira, 5 de maio de 2016

Nimbar

 
 
Ela precisou da banqueta para pegar na prateleira mais alta a obra que números e letras diziam ser sua salvação. Com o coração aos pulos achou bem escondido e empoeirado o livro velho que brilhou ao ser tocado, ainda que por dedos de pouca maturação. Na sala quase vazia, sentou-se a um canto sombreado e reverente a beirar a beatitude, abriu com o  indicador e o polegar a capa em frangalhos. Silenciosamente esquecida da vida passou duas noites e três dias a desbaratar palavras incompreensíveis que dançavam um ritmo incomum. No terceiro anoitecer que se mostrava, ao despertar do torpor que se encontrava, tinha olhos límpidos em nova cor. Abandonou seus pertences agora sem valor e ainda de certa forma ofuscada, na prateleira errada o livro encaixou.
Ao atingir a porta foi fulminada... Do céu límpido caiu uma estrela alada que explodiu transformando corpo e carne em nuvem de poeira que sorria. Em poucos segundos, nem querer nem dizer existiam e neste instante o livro na estante virou pó.
 
Marina Costa

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