segunda-feira, 20 de junho de 2016

Disfemismo

 
Jovens. Sorridentes. Sem maldades ou demônios. Rodopiam enquanto esperam um destino qualquer no ponto de ônibus. Ele belisca suas costelas. Ela puxa seu capuz. Unem seus rostos e cantam um som sem sentido que faz rir. O mau humor dos velhos, a pressa dos engravatados, nada parece atingir. Ele, anuviado em sentimentos, atento a cada piscadela dela, não quer ver o tempo passar. Não corre da chuva que chega, não pede mais nada da vida, só respirar o olhar. Um dia, soube de chofre, que ela foi passear em outros jardins. Saborear outro mel, conhecer sonhos mais soltos. Ele não compreendeu. Não aceitou, não arrefeceu. Noite alta, no quarto em silêncio, com travesseiro e olhos chorosos, aquela vida tirou. A moça fechou para sempre os cílios, calou para sempre os lábios e todos concordaram que foi amor. Tempos depois seu coração sombrio se acostumou com a tragédia e arrumou outro alguém. Ela virou estatística, a engrossar o caldo das meninas avoadas que não conseguem cuidar de si. O que ninguém percebeu é que a vida que ele ceifou não foi por querer, não foi por amar, nem foi por sofrer. Foi porque acreditou como muitos que assim podia ser. O homem outra vez vingou. Saiu outra vez ileso e vivo dessa trágica história de horror.
 
Marina Costa

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Finanças


- Escutou isso aqui João?
(Silêncio).
- 77 milhões. E hoje não arruma nem uma mulher para dar uma banho nele, doente e sozinho do jeito que vive...
(Desinteresse).
- Vê se pode, 77 milhões...
- Dinheiro não é de Deus não, José.
- Que que foi João?
- Dinheiro. É coisa de Satanás.
- Que coisa de Satanás o quê. O homem que é um descontrolado. Coisa de Satanás é ser pobre, ficar rico e ficar pobre de novo!
- Né coisa de Deus não. Jogo. Imagina quanto dinheiro de pão pai deixou ali... filho com fome...
- Deixa de ser besta homem. Não é cassino, nada disso não sô. Jogo é jogo horas!
- Eu ganhei muito no bicho. E agora tô aqui. E tô feliz. É de Satanás. Dinheiro de suor é que é de Deus.
- De Satanás né? Mas pega 77 milhões e leva lá pro seu pastor pra ver se ele não aceita...
- Mas aí tá abençoado. É diferente.

No banco da praça, Satanás maltrapilho pedia esmolas. Seu chapéu furado e vazio poucas vezes era notado pelos passantes que entravam na igreja. No Banco do lado, Deus contabilizava os lucros e repassava mais aos mais ricos. Enquanto os querubins, donos de pequenos botecos, tentavam equilibrar impostos e sonegação para não quebrar.
 
Marina Costa

domingo, 5 de junho de 2016

Andarilhar

 
Vou tomar de assalto aquele velho navio. Não é justo que ele se ancore por todos esses anos enquanto há tanto no mundo para ver. Vou tomá-lo à força para que na perda você perceba a necessidade gritante de se mover. Tanta tempestade por desabar, tanto sol por nascer, tanta terra verde para pousar. Suba a âncora dos seus pés, ice as velas que você prende com tanto medo e lança-se ao mar do desconhecido. A montanha não vem e não vai sair de lá. São as suas pernas, guiadas pelos seus sonhos, que vão te fazer subir mais alto, acima das nuvens, do lado da amplidão de tudo que é.

Marina Costa