segunda-feira, 20 de junho de 2016

Disfemismo

 
Jovens. Sorridentes. Sem maldades ou demônios. Rodopiam enquanto esperam um destino qualquer no ponto de ônibus. Ele belisca suas costelas. Ela puxa seu capuz. Unem seus rostos e cantam um som sem sentido que faz rir. O mau humor dos velhos, a pressa dos engravatados, nada parece atingir. Ele, anuviado em sentimentos, atento a cada piscadela dela, não quer ver o tempo passar. Não corre da chuva que chega, não pede mais nada da vida, só respirar o olhar. Um dia, soube de chofre, que ela foi passear em outros jardins. Saborear outro mel, conhecer sonhos mais soltos. Ele não compreendeu. Não aceitou, não arrefeceu. Noite alta, no quarto em silêncio, com travesseiro e olhos chorosos, aquela vida tirou. A moça fechou para sempre os cílios, calou para sempre os lábios e todos concordaram que foi amor. Tempos depois seu coração sombrio se acostumou com a tragédia e arrumou outro alguém. Ela virou estatística, a engrossar o caldo das meninas avoadas que não conseguem cuidar de si. O que ninguém percebeu é que a vida que ele ceifou não foi por querer, não foi por amar, nem foi por sofrer. Foi porque acreditou como muitos que assim podia ser. O homem outra vez vingou. Saiu outra vez ileso e vivo dessa trágica história de horror.
 
Marina Costa

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