terça-feira, 5 de julho de 2016

Bichos



Espalhados pela mesa, dezenas de pedaços de papel colorido. Amarelo, verde, uma profusão de brancos em diferentes tons. Para cada um deles uma data, um telefone, um lembrete, uma cobrança qualquer. Ao final do dia, exausta, ela respirou fundo para conter o choro que outra vez lhe inundava a garganta. Era viva demais para exercer tarefas tão mortas – pensava. Foi quando passou correndo, pelo chão do escritório vazio, um rato de porte considerável. Ela ficou abismada. Surpresa e surpreendida, observou a criatura pegar no chão um pedaço amanhecido de rosquinha, se deliciar ao roê-la com seus grandes dentes tortos para em seguida guinchar de alegria. Jura ainda que a viu lamber dedos e beiços antes de correr de volta para o buraco onde provavelmente correria para os esgotos ganhando enfim a liberdade da barriga cheia. 20 minutos depois, ela sorriu, lúcida. Pegou a caixa de clipes, organizou os papéis por cores, desligou o computador e saiu. Não passou mais nem na porta do escritório, dizem. A cadeira que ocupo ganhou a saudável alcunha de ratazana. Só sei que todos os dias me pergunto quem são os ratos, afinal.
 
Marina Costa