segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Ele de preto, Ele de rosa

Crédito imagem: Tom Privitere e Brian Edwards em www.nj.com
 
Mais um dia comum raiou na casa dos Silva. Pouco menos comum que os demais, já que era domingo, dia da diversão do João. Cedo ele já pulou na cama dos pais pedindo com olhos de cãozinho faminto o que tinha a certeza de conseguir. Um sorriu para o outro e juntos levantaram. Entre copos de leite com chocolate, bolo com geleia de ameixa, pão dormido com queijo e banana amassada com aveia todos riam das travessuras alimentares do pequeno João. Olhavam-se satisfeitos. Apressados pelo pequeno, foram se aprontar para a aventura fora das quatro paredes. Saíram os três. João corria na frente, saltitante em sua fantasia de princesa, a custo conseguida como presente dos pais. Estes caminhavam um pouco atrás, de mãos dadas. Ele de preto e ele de rosa. Era outro dia feliz para uma família que se permitia.
 
Marina Costa

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Arrulho

Crédito imagem: Autogiro Illustration

Ela sentou-se em frente à mesa da gerente. Muito  branca, muito loira, muito tímida, pedia implorando quase, que lhe dessem um empréstimo para fazer seu futuro. Entre uma e outra palavra, soltava um arrulho. A gerente, intrigada, tentava entender de onde vinha aquele barulho. Ouvia. A moça, clara como o dia, começou a contar seu plano de vida. E a medida que o sonho fazia-se em orações, ela ia abrindo os braços e enchendo o peito. Era claramente um sonho impossível, pensava a gerente, lembrando dos padrões negros e cinzas do capital… mas a menina falava tão cheia de vida que a mulher do dinheiro não soube dizer não. E quando a pequena compreendeu que conseguira, soltou um pio de alegria, subiu na mesa, bateu as asas e saltou janela a fora, arrulhando de emoção.
 
Marina Costa